Quem Errou? O Rock, o Grito ou o Mito?- Faço essa pergunta porque ela me veio a cabeça nessa madrugada de domingo. Tava zanzando pela casa e sentei na máquina, para mim o melhor lugar para ruminar esses meus delírios. Aí, puxei a página do bandwallpapers e comecei a baixar coisas. Nisso é que eu comecei a dar conta de uma série de grupos, nomes e denominações que nunca passaram pela minha vista ou pensamento a sua existência.
É material demais para ser ouvido e não existe cabeça que dê conta de ouvir tudo, ainda mais a minha , com meia existência de rodagem. E que rodagem! Nessas horas é que eu penso quantos atentados eu já cometi contra ela e minha sanidade corporal e, querendo ou não, ainda estou firme. Firme como prego no angu.
Há uns 20 anos atrás, eu ainda iria sair correndo atrás, ao menos, de um exemplar do trabalho de cada grupo para tomar uma noção caso fosse obrigado a falar alguma coisa a respeito.
Naquele tempo ainda era possível ter-se uma visão ampla, geral e mais ou menos irrestrita sobre tudo. Dava pra tu ir do pagode ao rock pesado sem gastar muito neurônio. Lógico que, em muita coisa, tu ia dar uma de José Ramos Tinhorão(“Não ouvi e não gostei”). Tanto dava que o Tinhorão era um nome respeitado, apesar do desprezo que lhe nutriam Tom Jobim e todo o pessoal da Bossa Nova.
Desde os anos 90 que se portar dessa maneira é cair no ridículo. Com o boom do rock incipiente e o surgimento de nomes como Arnaldo Antunes e Renato Russo, o mercado ficou mais seletivo, tanto de um lado da vitrine quanto no peso da pedrada. O tempo do Besouro contra a vidraça termina quando a última leitora virou a página final de um J G de Araújo Jorge da vida.
A Mídia desarmada assistiu Chico Buarque, Gil, Paulo César Pinheiro, Caetano e Fernando Brant terem seu grito político garroteado, travestidos em Calabares traidores, mortos em Porto Calvo por um mar cabeludo. O grito político não é mais do jovem político e sim da minoria bandida, cuja vida semelhante estava sendo cantada por lobões detidos junto à galera da onze. O cotidiano deixa de ser o reclamar do sistema no baixo leblon para se tornar o dia a dia de moradores de comunidades reprimidos pelos BOPEs, COREs e outras siglas que a repressão recebeu como upgrade.
Raul, Tim, Dalto, Melodia, Rita Lee e mais alguns tinham seu nicho, sendo originais, sendo cópias e sendo como as ilhas de Djavan, bem longe, à milhas e milhas daqui.
Com a morte do grito, o rock se achou o rei da panqueca frita e quis dar as cartas. Mas nem a vendagem de um RPM diluído conseguiu segurar a onda. A mídia precisava de mitos que ela fabricasse ou que fossem cooptados. Os que se prestavam a cooptação eram ruins em demasia, causando azia até em avestruzes acostumados a digerir o que viesse a ser capturado pelas suas antenas.
E foi aí que uma dita “brasilidade” se prestou a esse papel porco. Primeiro, o Brasil foi um bolero, depois foi brega e depois foi sertanejo. Hoje é lento num romântico delinqüente e puladinho com a bunda music caliente- essa invenção bahiana que, um dia desses, o resto do país devolverá a Salvador, com juros acima dos permitidos pela legislação.
O mito existe e está ai. Está no ar com a edição número nove do Big Brother Brasil. Está no mar com o cruzeiro-jogatina “Emoções” do Rei Roberto Carlos e em terra com o desfile venalizado e vendido, patrocinado pela LIESA num sambódromo em que até o Darci Ribeiro ficaria surpreso pelas suas múltiplas finalidades. Tem mentira sendo contada para todos, num “me engana que eu gosto” do qual todos participam como vips para ter seu instantâneo publicado em “Caras”.
Ninguém errou. Isso é o “deixa a vida me levar” de Zeca Pagodinho em seu sentido estrito. A vida, querendo ou não, tem dessas coisas, principalmente quando elas fogem do controle. E é com elas fora de controle que iremos chegar a algum lugar.
Garanto a você que, daqui a uns cinco anos, iremos sentar numa mesa de bar para conversar a respeito, Isso se ainda houver um bar, uma mesa, ou qualquer apoio para botar a cervejinha. Isso passa, acredite.

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