Quem são os verdadeiros jecas do Brasil?

Excelente artigo! Excelente!

Ivan





Sexta-Feira, 29 de Outubro de 2010





O maiô de Dona Marisa, ou: quem são os verdadeiros jecas do Brasil?



Tendo recebido uma bolsa de estudos no exterior, passei quase todo o governo Lula distante do Brasil. Antes de meu retorno, no ano passado, minha única vinda ao Brasil desde 2003 fora
por um mês, em janeiro de 2005. Num dos poucos momentos que tive na
frente da televisão, acabei assistindo um programa (bastante conhecido)
onde se discutiam os destaques do ano anterior. Muita coisa aconteceu em
2004, no Brasil e no exterior, mas uma das apresentadoras do programa
optou por destacar “o maiôzinho da Dona Marisa”
. Com tantos estilistas
brasileiros de renome internacional, se perguntava, como pode a esposa
do presidente usar uma coisinha tão jeca?
Não foi nem a irrelevância da
escolha, nem o comentário, mas o tom que mais me chamou a atenção: o
desdém que não fazia o menor esforço em disfarçar-se, a condescendência
de quem se sabe tão mais e melhor que o outro, que o afirma abertamente.


Veio-me imediatamente uma piada corrente durante as eleições de 1989, quando
pela primeira vez Lula ameaçara chegar ao poder. Ele e Dona Marisa
passam pela frente do Palácio Alvorada, e Lula diz a ela, “É aqui que
vamos morar”; ao que Dona Marisa responde, “Ai, Lula, não! Essas janelas
vão dar muito trabalho para limpar”
. A piada explica tudo: no Brasil,
uma camada da população tem sua superioridade sobre a outra tão
garantida, que não vê necessidade de dissimular essa distância, mesmo em
público
. Ser ou não primeira-dama, aqui, é secundário; pode-se rir na
TV da “jequice” de Dona Marisa do mesmo modo em que se faz troça do
perfume que põe a empregada quando termina o trabalho, e pelo mesmo
motivo – porque a patroa pode, e a subalterna, não.


Um mau momento de má televisão teve, para mim, a força de várias revelações. Em
primeiro lugar, sobre o país em que eu então vivia, a Inglaterra. Um
comentário desses, lá, receberia condenação pública. Alguém certamente
acionaria o Ofcom, órgão que fiscaliza a imprensa, para exigir
providências.
Se fosse na BBC, rede pública de TV e rádio, talvez o
autor fosse demitido.
Não por atentar contra a esposa de uma autoridade,
ou essa bizarra “liturgia do cargo” que a cada tanto se invoca no
Brasil, mas por ser uma manifestação pública de preconceito. O quê tem a
ensinar o livre exercício desse preconceito sobre o Brasil? O quê tem a
ver com a grita (“Estalinismo! Chavismo! Retrocesso!”)
cada vez que se
fala em fiscalização da mídia
, coisa corriqueira naqueles países (Reino
Unido, Suécia, Portugal, EUA...)
em que nossa elite não cansa de querer
espelhar-se
; e que, até hoje, pouquíssimas sejam as instituições
brasileiras públicas que se comparem, em qualidade de serviço, a uma
BBC?

Nos anos 70, Edmar Bacha popularizou o termo “Belíndia” como descrição do país: um pouco de Bélgica e muito de Índia, o Brasil era
muito rico para poucos e muito pobre para muitos. A auto-imagem que
mantém os habitantes de nossa “Bélgica” consiste em ver os dois lados da
moeda sem sua conexão necessária. Para esses, o verdadeiro Brasil é o
deles – branco
, remediado, educado. A “Índia” sem lei do lado de fora
dos muros não somente existe por si só, sem nenhuma relação causal com a
riqueza do lado de dentro, como é aquilo que atrasa o país; não fosse a
plebe, já seríamos Bélgica
, ou seja, já não seríamos principalmente
Índia. A pobreza dos pobres não resulta da má distribuição da riqueza
que se gera, pelo contrário: os pobres são culpados de sua própria
pobreza.
Mais do que isso, o potencial sub-aproveitado do país nada tem a
ver com o a maioria da população ser sistematicamente excluída na
educação, nos direitos, na renda; pelo contrário, “é por conta desse
povinho que o país não vai para a frente”.


Essa é a cara de uma elite pós-colonial: crê-se um ser estranho na geléia geral da colônia,
padecendo num purgatório de nativos indolentes e enfermidades tropicais.
Comporta-se todo o tempo como se ainda tivesse a caravela estacionada
ali na costa, pronta para zarpar de volta à metrópole. Mas sofre mais
ainda porque, não muito no fundo, sabe que não pode voltar, e que
chegando lá será apenas mais um subdesenvolvido, um imigrante, um
“moreninho”, um jeca
. Parte de sua truculência vem de saber que jamais
será aquilo que quer ver no espelho, e que aquilo que menos quer ser é o
que realmente é; de precisar provar para si que é diferente de quem
exclui e discrimina, já que nunca será igual a quem gostaria de ser.


No fim das contas, ela sabe que sua verdadeira cara não é nem a das
socialites da Zona Sul, nem dos intelectuais de Higienópolis, mas a do
grileiro da fronteira agrícola, do “coroné” do agreste.
E que, no fim
das contas, o que a mantém no topo não são os rapapés de seus salões,
mas o bangue-bangue de seus jagunços.
Da modernidade do primeiro mundo a
que gostariam de aceder, só o que lhes interessa são os sinais externos
de consumo e distinção social,
não o histórico de direitos sociais,
democratização das instituições, criação de equipamentos públicos e
reconhecimento de minorias e setores desfavorecidos.
Seu modelo sempre
foi menos a Bélgica, a Escandinávia, a Alemanha ou o Reino Unido, e mais
o excesso kitsch de uma Miami, a opulência caipira de uma Dallas.


A falta de uma instituição como a BBC (ou boas escolas públicas) tem tudo
a ver com essa maneira de desejar o desenvolvimento apenas o suficiente
para manter as bases dos privilégios existentes.
É a mesma dinâmica que
vê crescerem, paralelamente, o crime organizado e a indústria dos
condomínios fechados e da segurança privada: as camadas superiores da
sociedade brasileira trocam direitos – inclusive o direito de desfrutar
da cidade e de seus bens sem medo – por consumo. Da porta para dentro,
luxo; da porta para fora, faroeste. Cada vez que um debate sobre
democratização ou fiscalização da mídia é silenciado por acusações de
autoritarismo, o que temos é a jagunçada defendendo os latifúndios
comunicativos que algumas poucas famílias grilaram há um bom tempo.
É de
fazer rir a fingida consternação de alguns grupos e interesses com os
riscos que hoje sofreriam as “instituições republicanas”
, quando a
história das instituições brasileiras no geral demonstra que elas sempre
interessaram tão-somente na medida em que permitiam liberdade de ação
para uns e limites para outros.
Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. A
fragilidade institucional sempre foi não apenas instrumento de
reprodução da desigualdade, como ainda é o que permite a manifestação
explícita do preconceito.
Modernidade à Daslu: o luxo “de primeiro
mundo” sustentado pela sonegação de impostos
; a finesse que se assenta
na barbárie de um estado de natureza.


Haverá sido a distância, e a experiência de conhecer o quê foi a modernidade pela via da criação de
direitos, que fez nosso preconceito social saltar-me aos olhos; mas
também tenho a impressão que as coisas tenham, nestes anos, se tornado
ainda mais escancaradas. A polarização seria, sem dúvida, uma
consequência do governo Lula. Nem tanto do próprio presidente, de
tendência (talvez demasiado) conciliadora, mas da dificuldade de
aceitação, por parte de quem faz e consome a grande mídia de massa
brasileira, do que aconteceu no país nos últimos anos.
O crescimento
econômico experimentado nos últimos anos foi a perfeita demonstração da
falácia que culpava os pobres por sua própria pobreza
, e a do país: ele
não teria sido possível se a pobreza não tivesse caído 43% (20 milhões
de pessoas), se 31,9 milhões (mais de meia França) não tivessem
ascendido às classes ABC, ativando um mercado interno potentíssimo que
permaneceria em potencial enquanto essas pessoas estivessem excluídas do
consumo mais básico. Graças ao ciclo virtuoso que se formou foi
possível, por exemplo, aumentar o orçamento da educação em 125%,
expandir 42 universidades federais, criar 15 novas, construir mais
escolas técnicas (240) que em todo o século anterior (140).


Mais importante que qualquer número: políticas como o Bolsa Família e o
ProUni abrem a perspectiva de um ciclo virtuoso de criação de direitos.
Tais ciclos, como demonstra o retrocesso brutal que a Europa atravessa,
não apenas podem ser interrompidos, como não se mantém sem a mobilização
social que garanta sua expansão. Mas o fato de que hoje milhões de
pessoas se percebam como detentoras de direitos a exigir do Estado, ao
invés de clientes a trocar seus votos por favores de um “painho” na
época da eleição, não apenas é um salto qualitativo para a democracia
brasileira, como
cria justamente as condições para novos saltos da
organização popular
.
Construir direitos e instituições, no lugar do
clientelismo e do casuísmo da república dos bacharéis: se essa tendência
se consolida, terá sido a maior herança desses últimos oito anos.
É
pouco ainda, mas já é muito.


O que para alguns é difícil de engolir é que, quando o Brasil finalmente deu um passo para deixar de
ser Belíndia, não foi por obra da “Bélgica”, mas da “Índia”.
Para quem
se projetava no sangue azul de Odete Roitman, custa aceitar que a cara
do Brasil hoje é de Raquel Acioli, a ex-marmiteira que batalhou para
subir na vida da novela Vale Tudo.
Os episódios mais lamentáveis dessa
eleição – os emails e mensagens apócrifos, o uso do telemarketing na
propagação de boatos (criação de Karl Rove nos EUA, depois seguida por
John Howard na Austrália), a mobilização de um discurso conservador e
obscurantista que culminou com fazer do aborto uma questão eleitoral
pela primeira vez na história do país – são, mais uma vez, os punhos de
renda rasgando a fantasia e abraçando o mais desbragado faroeste.

Partido e candidato que um dia representaram uma vertente modernizante
das classes média e alta de São Paulo, de quadros intelectuais e
tecnocratas bem-formados, dissolveram-se na
geléia geral em que
quatrocentão e “painho”, uspiano e grileiro, socialite e “coroné”
existem, desde sempre, em continuidade e solidariedade uns com os
outros.
As promessas desesperadas de ampliação do Bolsa Família vindas
de quem até pouco tempo o desdenhava como “Bolsa Vagabundo”
, ou a
cortina de fumaça que se constrói ao redor do debate do pré-sal, indicam
que, atualmente, é impossível eleger-se no Brasil negando certos
direitos recém-descobertos por vastas parcelas da população. A elite,
mais do que nunca, precisa esconder seu verdadeiro programa.


Resta-lhe, então, partir para um jogo que começou nos EUA nos anos 80, e cuja
eficiência na Europa cresceu muito na última década: tirar a política do
debate político e substituí-la pelos cochichos igrejeiros, pelo apelo a
um passado mistificado e a um moralismo espetacular
que
instrumentaliza os medos
causados por um tecido social cada vez mais
esgarçado e propõe falsas soluções simples e regressivas, ao invés de
confrontar-se verdadeiramente com a complexidade crescente dos
problemas.
É um “fim da política” que cobre a política que realmente lhe
está por trás.
Assim, por exemplo, o governo inglês anuncia, na mesma
semana, o perdão de uma dívida de 6 bilhões de libras da empresa
Vodafone e um programa de cortes de serviços sociais
maior que qualquer
coisa jamais proposta por Margaret Thatcher.
Ou, depois do mercado
financeiro ter usado a crise grega para dobrar a União Européia com a
ameaça de um ataque ao euro, volta-se a culpar os imigrantes
pela
sobrecarga de serviços sociais de orçamentos cada vez mais reduzidos

culminando com o recente apelo de Angela Merkel por “uma Europa de
valores cristãos”.

Talvez seja apenas no momento em que a Europa regride que a elite brasileira poderá, enfim, realizar seu sonho:
juntar-se a seus “iguais” de ultramar na vanguarda de um retrocesso
que
mobiliza o medo e o reacionarismo mais rasteiro contra direitos e
instituições historicamente conquistados.
Afinal, a “lavagem de votos”
da extrema-direita, pela qual o centro dá uma cara “respeitável” ao
conservadorismo “selvagem”, tornou-se o maior negócio político de nossos
tempos. (Quem sabe mesmo, agora, a extrema-direita comece a prescindir
de intermediários: ver o PVV de Geert Wilders na Holanda.)

Rasgada
a fantasia, fica tudo claro. Quem quer Estado apenas na medida em que
este garante privilégios; quem tira os sapatos no aeroporto de Miami e
entra na justiça para que o porteiro o chame de “doutor”;
quem troca
direitos por capacidade de consumo; quem sonega impostos e abomina as
gambiarras e “gatos” das favelas; quem se queixa da falta de autoridade e
do “jeitinho”, mas suborna o policial e espera que as legislações
ambientais ou trabalhistas não se apliquem aos seus negócios; quem ainda
se comporta como se estivesse com a caravela ancorada, sem nenhum
interesse no país a não ser o lucro rápido para partir de novo, e então
se queixa de um pais que não “vai para frente”
esses são os
verdadeiros jecas do Brasil
. A boa noticia é que, pelo menos por hora,
eles estão perdendo.


(*) Rodrigo Nunes é doutor em filosofia pelo Goldsmiths College, Universidade de Londres, pesquisador associado
do PPG em Filosofia da PUCRS (com bolsa PNPD – CAPES), e editor da
revista Turbulence (www.turbulence.org.uk).


Exibições: 37

Comentário de celio cicero de araujo em 29 outubro 2010 às 11:08
Brilhante comentario Dr. Rodrigo!!!
não tenho formação superior, sou de origem humilde más vejo que as coisas estão mudando e de 2002 ficará como o ano da partida, do começo da mudança para uma visão diferente do nosso Brasil. Lula deu o pontapé inicial para a mudança ao inverstir em universidades, pois vejo muitos pobres que jamais sonharam e ter um filho na faculdade e que já desfrutam desse anseio que era sonhos em outrora.

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