QUEM TEM MEDO DE INJEÇÃO?

Se tal pergunta fosse dirigida a um auditório ou assembléia ao qual eu estivesse presente, provavelmente a primeira mão a ser levantada seria a minha. Não! Eu não tenho medo de injeção! Eu “borro” de medo! “NIMIM NÃO”! Nos outros é muito bom. Em quase meio século que exerci as funções de dentista, esbaldei-me enfiando agulhas nos outros. A expressão de panico e pavor que faz um indivíduo quando você aponta-lhe uma agulha ao rumo do olho e diz que vai aplicar uma anestesia infra-orbitária pela tecnica extra-oral é simplesmente impagável. Não tem preço. E a mandibular então, que a gente enfia e vai fazendo voltinhas até chegar no lugar certo!... É a glória!... mas antes a gente tem que mostrar o tamanho da agulha. “Toinzim Cabeça” é um parceiro de pif-paf, lá no clube de carteado. A razão do apelido, vem de sua origem baiana e a musica cuja letra diz: “cabeça grande é sinal de inteligência, agradeço a providência ter nascido lá”. Um dia, eu precisava de um ás de espadas para bater uma parada. O Antonio tinha os dois ases e não descartou. Perdi a parada, mas na boa, relevei. Mas não esqueci. Passados alguns dias, o Toinzim apareceu no consultório com uma baita dor de dentes. Um terceiro molar já todo carcomido pela cárie, apresentava pulpite aguda. Não havia recurso. Avulsão! Enquanto a auxiliar ajeitava de maneira bem acintosa os forceps, alavancas, cinzel e martelo, eu inseria uma agulha na seringa, de maneira que ele visse bem o tamanho e dizia: você lembra daquele ás de espadas?

Meu amigo Binga (outro apelido) quando molecote, em seus seis a oito anos, tinha como brincadeira mor, mutilar animalculos. Adorava cortar rabos de lagartixas e mutilar aranhas, besouros e baratas. As aranhas do quintal da casa dele não eram octópodes. Eram no máximo pentápodes. No jardim da casa dele não haviam centopéias, haviam oitentopéias ou setentopéias. Os besouros, ele espetava em caixas de papelão, usando alfinetes. As baratas ele espetava de costas e ficava olhando-as se espernearem. O Binga virou doutor. Ortopedista, é claro! O consultório dele era na mesma rua do meu, duas quadras abaixo. Um dia fui acometido por uma tremenda dor na coluna. Fiquei completamente paralisado. Sem poder movimentar o corpo nem para um lado nem para o outro, gemendo de dor, desci até o consultório do Binga. Fui chegando e dizendo: que dor! Quem sabe uma aplicação de raios ultravioletas melhora? Ele me deitou em uma mesa, apalpou, apalpou e disse: Ipe, (muitos ainda me chamam assim) vamos ter que fazer uma infiltração lá na inserção do músculo! Calculei o tamanho da agulha. No mínimo quinze centimetros. Comecei a lembrar dos besouros e baratas espetados. O Binga!...aquele Binga!... enfiar uma agulha deste tamanho em mim? Mas não vai mesmo! Como por encanto, a dor sumiu. Ao contrário do que dizem o Silas e o Waldemiro, não é só a fé que cura. O medo também faz milagres. A dor sumiu. Saltei da mesa e desapareci dali.

De uma outra vez, quem presenciou um milagre, foi um outro médico, amigo de meu pai. Fui acometido por uma bursite e estava com uma dor lancinate no braço direito, praticamente pararalisado. Procurei o Dr. Flávio, dizendo-lhe que eu estava com uma “bursite clavículo umeral”. Sorrindo, ele disse: já diagnosticou? Que vieste fazer aqui? Apalpou meu ombro, examinou e me deu dois comprimidos de amostra gratis e uma receita. Disse ele: tome estes dois comprimidos e amanhã, passe na farmácia, compre esta ampola e venha para eu fazer uma infiltração. Viu que eu ia tomar uma infiltração. Os dois comprimidos funcionaram como passe de curandeiro. A dor sumiu! Só fui lá para avisar que estava tudo bem.

Há algum tempo, o milagre foi diferente. Eu estava em uma sessão de pif-paf, ganhando muito e doidinho por uma desculpa para sair, antes que a sorte virasse. Apareceu o meu cunhado (meu cunhado nada, marido da minha irmã. Eu não tenho nada com isso) O pseudo-parente veio avisar-me que minha irmã iria ser operada no dia seguinte e precisaria de sangue, que era para eu ir ao hospital pela manhã para doa-lo. Fiquei bravo pois entendi que não iria dormir, pensando na grossura da agulha. Mas aconteceu algo realmente inóspito. A enfermeira que veio espetar-me trajava um jaleco com a parte do decote, (por sinal muito generoso) mal abotoada e que deixava à mostra um maravilhoso par de peitos. Pareciam dois pombos de alabastro. Nem senti a agulha e ainda ofereci mais sangue.

Ontem procurei um médico. Há alguns dias atrás, fui atacado por uma pernilonguinha safada, do genero aedes, que me transmitiu um tanto de flavivirus. O discípulo de Hipócrates que me atendeu, receitou-me umas injeções. Eu percebi a olhadinha de soslaio que ele me deu e o sorrisnho mefistofélico com que ele entregou-me a receita. O farmaceutico é meu amigo. Mostrei-lhe a receita e perguntei se não havia um similar em drágeas ou gotas. Ele disse que havia, mas que só poderia vender pela receita e a receita era para injeção. Só podia ser vendido por receita de médico ou odontólogo. Tá certo. Fui la em casa, peguei um receituário antigo e fiz uma receita, do mesmo medicamento, em drágeas, para o meu neto e assinei. Eu parei de trabalhar, mas meu registro no conselho ainda existe. Nem vem, que não tem. Bundinha que mamãe beijou, esculápio nenhum enfia agulha. Ou qualquer outra coisa!

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