Aluguel de manifestantes ou militantes é uma prática tão brasileira como o futebol, samba ou cachaça. É praticamente impossível realizar eleições, carreatas, passeatas, manifestações ou inaugurações de obras pública sem a presenças de grupos de pessoas recrutadas para promover os interesses dos seus patrocinadores, sejam eles agentes públicos ou autônomos. A prática é um elemento importante, embora ilegal, do arsenal propagandístico de políticos brasileiros.

             Rojão lançado por um manifestante no Rio de Janeiro causando a morte do cinegrafista Santiago Andrade expôs dramaticamente a complexidade e o risco de cobrir protestos populares.  Denúncias de pagamentos a manifestantes por partidos políticos  provocaram uma verdadeira caça às bruxas, confundindo e politizando a elucidação dos fatos e a elaboração de uma estratégia de proteção dos profissionais da comunicação. Ataques contra jornalistas e o pagamento de manifestantes não são fatos novos no ciclo de manifestações públicas ocorrendo no Brasil.

            Durante as manifestações da Copa das Confederações balas de borrachas foram usadas indiscriminadamente por forças de segurança contra jornalistas, sem observar as regras de uso proporcional da força do Código de Conduta da ONU. Sofreram ferimentos sérios, dois profissionais, um deles com perda unilateral da visão. No Dia Nacional da Luta em julho de 2013, jornalistas flagraram pessoas comuns recebendo pagamento para participar do evento. Extensiva cobertura na mídia e protestos foram recebidos com apatia pela classe politica sem nenhuma providência tomada até a tragédia do Rio de Janeiro. Falta de planejamento para a segurança pública convertendo-se mais uma vez em uma situação emergencial.

            Estamos em um clima de frisson político e hipérbole midiática. Projetos de lei propostos em regime de emergência, sem a participação da sociedade civil, refletindo quase que exclusivamente a visão idiossincrática da elite política. Apática, insegura e intimidada, a sociedade civil testemunha silenciosa a diminuição da sua influência na segurança pública e na participação cidadã, enquanto o estado verticaliza mais e mais as relações entre o poder público e o povo.

 

Palmari H. de Lucena é membro de União Brasileira de Escritores

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