RIGOLETTO NO TEATRO SÃO PEDRO- DIAS 29 E 30, GRANDES VOZES COMPENSAM OS ERROS DA PRODUÇÃO.

A estréia da Orquestra do Teatro São Pedro era aguardada com ansiedade. Não é fácil montar um grupo orquestral e em pouco tempo conseguir uma sonoridade operística. Depois de sua criação, um famoso maestro ficou bravo, soltou marimbondos africanos. Reclamou do processo de seleção, da qualidade do trabalho, dos salários. Procurou pêlo em ovo, criticou tudo e a todos. Perguntei: como foi feita a seleção? Me informaram que o processo foi feito com grande lisura. Chegaram seiscentos currículos, foram selecionados cem. Nos testes, uma cortina encobria o candidato, e ninguém sabia quem tocava. Isso já é feito em outras orquestras. Evita-se o apadrinhamento, o tapinha nas costas, o coleguismo. Foi contratado o que melhor se apresentou.
A sonoridade conseguida em tão pouco tempo foi uma surpresa. Metais calibrados, volume adequado à ópera, andamentos quase sempre corretos, ainda que às vezes um pouco arrastados para se adapatarem às necessidades do cantor. Pode-se encontrar um pequeno defeito aqui ou acolá, mas o futuro para esse grupo liderado por Roberto Duarte e Emiliano Patarra é promissor para a ópera.
A produção mostra enormes equívocos nos cenários. O primeiro ato se passa na Idade Média, coloca painéis e projeta imagens medievais, idéia batida mas interessante. Na segunda cena, se inspira ou copiam-se os cenários da produção do Covent Garden de Londres, 1996, a casa do personagem vira tubular, escura. No segundo ato, que se passa no palácio do duque, temos painéis e só. De repente o duque ficou pobre! Cadê o palácio? A taverna do terceiro ato lembra tudo, menos uma taverna. Uma senhora ao meu lado, profunda conhecedora de récitas pelo mundo afora, achou engraçado. Leu nas legendas taverna, mas não entendeu o que viu em cena. A iluminação é pobre e simples. Os figurinos são adequados a um período histórico pouco delimitado.
A diretora especializada em ópera Lívia Sabag se perdeu. Sua concepção não tem uniformidade. Toda a ação se passa na ponta do palco, se alguém errar um passo cai no fosso da orquestra. Não utiliza a profundidade. Os cantores têm que atuar em um pequeno espaço, e ficam geralmente estáticos. Seu pecado mortal é deturpar a música de Verdi. Na cena da tempestade do terceiro ato ela coloca um irritante barulho de chuva. Atrapalha a música composta por, nada mais, nada menos, que Giuseppe Verdi. Lívia Sabag tem esse direito?
As vozes foram o destaque das duas noites. No dia 30, Licio Bruno é um Rigolleto dúbio, ora canastrão, ora sentimental. Gesticula muito e expressa toda a gama das facetas do personagem. Sua voz é vigorosa, tem os graves que muitos barítonos desejam, chega a ser grande e consistente em todos os registros. Artista polivalente, se transforma no personagem, grande Rigolleto. Laura Rizzo faz uma Gilda apaixonada e ingênua. Sua voz tem um timbre agradável, com bom fraseado. De uma bela cor clara e macia. Il Duca de Mantova de Miguel Gerardi canta muitas vezes virado para as coxias, o que prejudica sua apresentação. Apesar disso consegue uma voz que é de um belo timbre, afinada e segura.
Sebastião Teixeira assumiu o Rigoletto no dia 29. Sua voz não tem o volume que o personagem exige, mas compensa com um colorido nos médios, ora sólidos, ora fortes. Interpreta a sua maneira um Rigoletto menos incisivo e mais leve. Sérgio Weintraub começou a récita com a voz pequena, foi se perdendo no segundo ato até ser substituído no terceiro, devido a uma laringite. Isso acontece em ópera, mas perder a voz na hora de sua principal ária é triste, ninguém merece um castigo desses.
A sensação, revelação ou o destaque da récita foi Caroline De Comi. Soprano com a voz das ninfas gregas olímpicas, digna de cantar ao lado de Apolo e sua inebriante lira. Leve, clara, lírica e delicada. Penetra nos ouvidos com superlativa capacidade de emocionar e seduzir. Sustenta as notas no limite, não tem medo de correr riscos. Mas não é só a voz que faz um grande soprano, exibe um porte físico de grande beleza e uma atuação cênica emocionante, comovente e apaixonada. Vou acompanhar de perto a carreira desse soprano, vai longe.
Os comprimários estiveram em bom nível, destaco Adriana Clis e Keila de Moraes como Maddalena e Eduardo Janho-Abumrad como Monterone. O coro esteve acima das espectativas, bem afinado e uniforme, não esperava tanto em uma primeira apresentação.
Um grande Rigoletto, vai ficar marcado pelas vozes e por ser a primeira ópera de orquestra do Theatro São Pedro. Pena que a produção errou na massa e no tempero.
Ali Hassan Ayache

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