Saul Leblon erra no título, mas acerta no texto --- "O empregado tem carro e anda de avião. Estudei pra quê?" --- Vai rolar um rolezinho?

.





06/02/2014 - Copyleft


PT, 34 anos: o esquartejado ainda respira - e teima?


Da perplexidade ao ataque, passaram-se poucos dias até o impoluto Gilmar Mendes puxar a coleira da matilha que passou a farejar sem trégua.


por: Saul Leblon 


O deputado André Vargas (PT-PR) não foi orientado por um script publicitário a erguer o braço e cerrar o punho na presença da toga que se esponja no desfrutável papel midiático de algoz do PT.
Genoíno, que o antecedeu na afirmação simbólica de identidade e protesto, ou Dirceu, que assim também se confraternizou com os militantes solidários que o aguardavam na entrada da Papuda, tampouco  obedeceram aos alertas  de ‘luzes, câmera, ação!’

Milhares de petistas e não-petistas anônimos que fizeram chegar doações a Genoíno e Delúbio – e aqueles que repetirão a solidariedade a Dirceu e João Paulo, por certo não podem ser confundidos com coadjuvantes de uma peça eleitoral.
O significado desses sinais de vitalidade enviados do metabolismo profundo não apenas do PT, da esquerda em geral,  já foram sublinhados pela argúcia de vários analistas da blogosfera.

O que eles evidenciam deixou inconformados colunistas e togas engajados em anos de desqualificação diuturna do partido, de seu legado e  valores.

Depois de tanto sangrar, o esquartejado ainda teima –e respira?

Da perplexidade ao ataque, passaram-se poucos dias até o impoluto doutor duplo habeas corpus, Gilmar Mendes,  puxar a coleira da matilha que passou a farejar operosa e incansavelmente: em algum ponto há de se achar  uma cubana das doações.

O fato é que  eles não contavam com a sobrevida da solidariedade no espinhaço ferido  da esquerda. Tudo isso já foi dito e bem dito.

Faltou dizer  que parte expressiva desta esquerda também se surpreendeu.

Surpreendeu-se  ela com o efeito demolidor de algo esquecido na prática minuciosamente monitorada pela conveniência  do exercício do poder: a espontaneidade de André Vargas.

Sem falar da solidariedade sem hesitação a Genoíno e Delúbio  –que por certo inclui doações expressivas de instituições e personalidades, a exemplo do cheque de R$ 10 mil enviado pelo ex-ministro Nelson Jobim.

Mas nada que diminua a vitalidade do que verdadeiramente incomoda e sacode: milhares de doadores anônimos não esperaram uma peça publicitária para sair em defesa de quem personifica referências inegociáveis de sua visão de vida, de mundo e de Brasil.

A criatividade inexcedível do protesto espontâneo e o efeito demonstração incomparável da prontidão solidária hibernavam na memória algo entorpecida do PT.

Há mais de uma década desafiado a ser partido de massa e governo --  a bordo das sabidas contradições que a dupla jornada encerra, o partido impôs-se, compreensivelmente, o gesso da previsibilidade e as algemas do risco zero.

Ademais dos comedimentos  da responsabilidade  de ser governo, o próprio êxito dessa trajetória  -- reiterado nas urnas—instituiu um protocolo de autopreservação: ele delega ao pensamento publicitário a última palavra (não raro a primeira também) sobre o que o partido deve falar, quando e como fazê-lo.

Cabe a pergunta: que publicitário petista orientaria um dirigente a cerrar o punho, de braço erguido, diante da toga colérica, a essa altura do jogo? E quantos bancariam uma campanha massiva de doações aos incômodos condenados do chamado ‘mensalão’?

‘E pur si muove...’

A eficácia do improvável deveria inspirar arguições no pragmatismo que planeja a campanha presidencial deste ano.

Todo cuidado é pouco  –estão aí as togas, o jornalismo isento, os mercados sedentos, os netos oportunistas e os verdes convertidos no altar do tripé.

‘Não vai ter Copa’ é o mínimo que eles ambicionam.

Mas estão aí também a democracia e o desenvolvimento brasileiro perfilados  num horizonte de encruzilhadas imunes à receita de mais do mesmo em nova embalagem e sabores reciclados.

Aquilo que cabe em um script competente, mas exatamente por isso encilhado em baixos teores de ousadia e residual  espaço à mobilização, talvez seja suficiente para vencer o conservadorismo nas urnas de outubro.

Mas o será para liderar a transição do novo pacto de desenvolvimento necessário à construção da democracia social brasileira?


A ver.


Comentários destacados por PressAA:

Não gostei do título. Um prato cheio para a direita jogar na cara petista que realmente fomos fragmentados. Pelo contrário. A militância nunca foi atingida, tampouco o partido reduzido. Longe disso. Fomos injuriados, atacados, caluniados, cerceados, mas estamos intactos. So sorry!

Entendi que o título foi para ironizar a situação, quanto ao texto, irretocável, nada a acrescentar. Parabens!

o que gilmar não explica é a sua participação como beneficiário do mensalão tucano (185 mil reais) e o contrato de sua empresa com o tjba. além de outras cositas mas...


_______________________________________________________________________________



10 DE FEVEREIRO DE 2014




O condômino é, antes de tudo, um
especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do
calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não
ter fim.


Por Matheus Pichonelli*, na Carta Capital


À primeira vista, é um sujeito civilizado e
cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem
assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a
temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em
todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante
de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira.
Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de
que a humanidade não deu certo.


Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu
desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente
'revoltada' porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu
fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir
que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a
funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.


A cena parecia saída do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, no qual
a demissão de um veterano porteiro é discutido em uma espécie de
"paredão" organizado por condôminos pouco afeitos à sensibilidade. No
caso do prédio do meu amigo, a moça havia se transformado na peça central de um
esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para
cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era
baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.


Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana
do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso
comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em
seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de
que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada,
reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos
damos conta.


Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe
chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa
pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em
condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da
linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos
aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase
cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado
vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.


Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é
picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de
texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.


O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil
porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a
uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso
comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma
condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem
uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus
conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e
especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe
escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê
jornal.


Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o
meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil
cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.


Por isso comemora-se também à saída da faculdade. Já vi, por exemplo,
coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia
de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de
uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura de
um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a
batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente é,
por si, um privilégio.


Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que
permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos
satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar,
enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho
em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gosto de dizer “estou te
pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a
atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi
batata-fria e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve,
me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de
restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço:
é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na
maioria dos casos, para corroborar estas posições.


Por isso o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a
praga da ignorância instruída. Por isso as pessoas se incomodam quando a
lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma
vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos.


Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o
episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto
e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque
voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que se deslocar ao ar de um local a
outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar
para andar de avião).


Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da
elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção
nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este
discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação,
pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída
com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.



*Matheus Pichonelli é formado em jornalismo e ciências sociais, é
editor-assistente do site de CartaCapital.


_______________________________________________________________________________

De...



Boletim de Atualização - Nº 358 - 11/2/2014
...para a PressAA...


“Rolezinho”: diálogo com ideias de Antonio Candido


img48878a5d90c09

Direito à fantasia, equilíbrio social e desigualdade. Como alguns dos temas estudados pelo mestre ajudariam a compreender novo fenômeno das periferias

Por Max Gimenes

O tema do momento são os “rolezinhos”, idas em grupo de jovens da periferia aos shopping centers para se divertir. Todos os dias, novas entrevistas ou artigos pipocam na internet com a opinião de todo tipo de “especialista”. Para não falarmos dos nem sempre muito animadores comentários de internautas comuns em portais de notícia e em redes sociais.

Em meio à enxurrada renovada diariamente de informações e opiniões inéditas, inescapável nestes nossos tempos de domínio da internet, um abrigo tranquilo e fecundo para pensar de modo mais aprofundado os assuntos do momento talvez esteja off-line: mais precisamente, no seio das reflexões de velhos intérpretes do Brasil, que em vez do tratamento de informações fragmentadas e imediatas pensavam a realidade brasileira como um todo e mais a frio, o que lhes permitia atar pontas nem sempre perceptivelmente ligadas de um desenvolvimento histórico atípico como o nosso.

Com isso em mente, e com base em textos de autoria de um desses intérpretes “clássicos”, ocorreu-me a ideia de arriscar – sempre muito respeitosamente e admitindo de antemão a hipótese de equívoco e insuficiência – o que o sociólogo e crítico literário Antonio Candido, hoje com 95 anos, teria a dizer sobre o assunto.

Em relação a isso, uma coisa é certa: ele encararia o tema como fenômeno cultural e o abordaria no registro dos direitos humanos, na linha do que fez a respeito da literatura numa conferência ministrada em 1988 (“O direito à literatura”, publicada no livro Vários escritos). Nela, entendendo a literatura de modo amplo (“todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações”), Candido postula que, por se tratar de necessidade observada em todos os indivíduos e sociedades (apesar das diferenças de manifestação), sua satisfação deveria ser encarada como direito humano, a ser fixada de acordo com as condições objetivas de cada cultura. E o que os “rolezinhos” têm a ver com isso? Muita coisa, posto que, além de lazer, são manifestações culturais que trazem em seu bojo criações da ordem da fantasia, das quais todos temos necessidade de fruir, cada um escolhendo para tanto aquelas que lhe são mais acessíveis e parecem mais lhe dizer respeito.

No entendimento de Candido, a concepção dos direitos humanos implica a distinção entre bens compressíveis e incompressíveis, pois depende daquilo que classificamos como bens incompressíveis, isto é, que não podem ser negados a ninguém. Obviamente, a fixação da fronteira entre ambas as classificações não acontece por si só, mas através de permanente embate político entre diferentes visões de mundo. Para aqueles que, como nosso autor, prezam por valores humanistas e de justiça social, o pressuposto a ser adotado é claro: “reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo” – como, em nossa cultura, frequentar espaços de uso coletivo (o shopping, por exemplo), consumir, divertir-se.

Acontece que entre um tal pressuposto e a nossa sociedade existe contradição. A marca de nossa cultura é a instigação ao consumismo e à acumulação sem limites. Dito de outra maneira, o consumo não visa satisfazer necessidades determinadas, pois a necessidade abstrata se tornou o próprio consumo. Com isso, fica difícil manter o equilíbrio social, pois não é cabível concretamente considerar indispensável para o próximo algo ilimitado, até por uma elementar questão de sobrevivência (equivaleria a uma regressão ao chamado “estado de natureza”). A acumulação sem limites implica poder apropriar-se do que, em tese, deveria servir para a satisfação de necessidades do outro, o que significa que as necessidades criadas por nossa cultura não podem na prática ser satisfeitas em todas as camadas sociais. O consumo e a acumulação ilimitados só podem existir enquanto privilégios de uma minoria, a qual, por essa condição privilegiada, opõe-se às demais, exploradas, controlando-as quer pela força, quer pelas ideias. É esse o conflito lógico de interesses armado por nossa sociedade, a tal da “luta de classes” – que não precisa ser, para existir, um conflito aberto e do qual as partes tenham consciência.

A realização individual, levando adiante o raciocínio proposto por Candido, significa participar plenamente da sociedade à qual se pertença, podendo-se satisfazer razoavelmente as necessidades tanto materiais como simbólicas que ela propõe como possíveis e desejáveis. Como vimos, a capacidade generalizada de consumir tudo aquilo que é propagandeado como disponível a todos não é factível, e o mal-estar gerado por essa frustração contamina as manifestações culturais das camadas mais atingidas por esse desfavorecimento. Na periferia de São Paulo, esse mal-estar parece estar na gênese desse novo estilo “ostentação”, tão presente na moda e na música adotada e apreciada por esses jovens.

Está certo quem diz que eles, ao menos até agora, só têm buscado “se divertir” com seus rolês. Erra, porém, quem adota a postura anti-intelectualista implicada em negar toda e qualquer tentativa de teorização a respeito. Sem teoria não há interpretação de fenômenos, mas descrição e aceitação deles como parecem ser e como se fosse natural serem do modo como nos aparecem – um notório desperdício para uma espécie dotada de algo a que comumente nos referimos como “razão”. A pertinência de cada teoria aventada, aí sim, pode e deve ser avaliada caso a caso. Aqui nos interessa testar uma leitura do fenômeno baseada nas ideias de Candido, para ver se estas contribuem para sua interpretação.

Seguindo com nosso autor, é possível entender as criações culturais em geral como tentativas de organização do caos da experiência, o que, de quebra, lança também as bases do ideal de si a ser perseguido e eventualmente realizado por cada um. É por meio das criações culturais, afinal, que testamos hipóteses de como a vida, social ou individual, poderia ser, e vemos se funcionam. E também as comparamos com a realidade vivida. É isso o que faz, por exemplo, o “funk ostentação”, ao propor, para quem não sabe o que é isso, a hipótese de uma vida de consumo extravagante. Tal fenômeno musical é contraditório, e evidentemente há ressalvas estéticas a serem feitas. Uma delas é que a forma assumida pela figuração desse mal-estar não parece em si refutar, de nenhuma maneira, a hipótese que apresenta, reproduzindo com isso a ideologia dominante, segundo a qual o acesso universal ao consumo ilimitado é factível e livre de condicionantes sociais. Nessa medida, então, funcionaria como ideologia a favor da manutenção do atual estado de coisas, como falsificação da realidade, e não como algo revelador de sua essência.

Para quem acompanha o ponto de vista de Candido, os “rolezinhos” parecem então inscrever-se, na ordem social vigente, no âmbito dos direitos. As ações dos administradores de shopping, da Justiça e da Polícia Militar, ao tentar proibi-los, podem mostrar a esses jovens da periferia aquilo que as criações culturais como o “funk ostentação” não parecem até agora ter dado conta de fazer: que eles não são tão bem-vindos quanto imaginam no mundo do consumo, cujo “templo”, não à toa escolhido por eles como locus de diversão, são os shopping centers. Isso pode abrir caminho à politização do conflito e a uma eventual ação coletiva de questionamento, o que é razão de temor por uns e de aposta para outros, a depender da visão de mundo. E no debate público todos tentam, evidentemente, influenciar o rumo do fenômeno e seus desdobramentos no sentido daquilo que lhes convém.

Interessante notar que, ao não se resolver bem internamente às criações culturais lastreadas no estilo “ostentação”, a contradição já apontada entre o sistema sócio-econômico e os desejos dessa juventude periférica é devolvida para a realidade na forma de cobrança real desses jovens por participação quase ilimitada no consumo, o que pode desencadear choques e movimentos interessantes. Excelente exemplo de entrelaçamento de manifestações culturais e conflitos sociais. Aqui, porém, já estaríamos também recorrendo a um discípulo de Candido, Roberto Schwarz, o que talvez seja sinal de que, ao menos por ora, é melhor ficarmos por aqui.
 o que de fato acorreu


____________________________________

Facebooket


- E aí, meu, vai prum rolezinho nesse fim de semana?
- Qualé, meu! Isso é programa de babaca. Prefiro o churrasco e pagode na laje!

_______________________________________________________________________________


“É MELHOR MORRER DE VODKA DO QUE DE TÉDIO.” (MAIACOVSKY)


660 indivíduos e 147 corporações controlam a economia mundial


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014



Mapa-mundi da riqueza




Um estudo da Universidade de Zurique revelou que um pequeno grupo de 147 grandes corporações transnacionais, principalmente financeiras e extrativistas de minério, na prática controlam a economia global. O estudo foi o primeiro a analisar 43.060 corporações transnacionais e desvendar a teia de aranha da propriedade entre elas, conseguindo identificar 147 companhias que formam uma "super-entidade"



O pequeno grupo está estreitamente interconectado através dos conselhos administrativos corporativos e constitui uma rede de poder que poderia ser vulnerável ao colapso e propensa ao "risco sistêmico", segundo diversas opiniões. O Projeto Censurado da Universidade Sonoma State da Califórnia desclassificou esta notícia sepultada pelos meios de comunicação e seu ex-diretor Peter Phillips, professor de sociologia nesta universidade, ex-diretor do Projeto Censurado e atual presidente da Fundação Midia Freedom/Project Censored, a citou em seu trabalho "The Global 1%: Exposing the Transnational Ruling Class" (1%: exposição da classe dominante transnacional), firmado com Kimberly Soeiro e publicado em Projectcensored.org.



Os autores do estudo são Stefania Vitali, James B. Glattfelder e Stefano Battinson, investigadores da Universidade de Zurique (Suíça), que publicaram seu trabalho em 26 de outubro de 2011, sob o título "A Rede de Controle Corporativo Global" (The Network of Global Corporate Control) na revista científica PlosOne.org.



(Para ler completo, clique AQUI)



_________________________________________________________________


SOU UM TETRAPLÉGICO A TUDO FAZER, PARA NÃO CENTRAR A MINHA LUTA EM TORNO DOS DIREITOS E BENEFÍCIOS RELACIONADOS COM A MINHA DEFICIÊNCIA, E SIM EM TORNO DA IGUALDADE DE OPORTUNIDADES PARA EXERCER OS MESMOS DIREITOS QUE QUALQUER OUTRO CIDADÃO.


Acompanhantes Sexuais Diplomadas para Deficientes




Eles são enfermeiros, massagistas, terapeutas ou artistas. Têm entre 35 e 55 anos e foram formados para responder às necessidades sexuais de pessoas sofrendo de uma deficiência física. Uma tarefa delicada, sobretudo pelo facto de a sexualidade de deficientes ser geralmente rejeitada pela sociedade e alvo de fortes preconceitos. 





Para responder às necessidades dos novos pacientes, a Associação Sexualidade e Deficiência Pluriels na Suíça francesa (SEHP) acaba de formar seu primeiro grupo de assistentes sexuais diplomados. Em breve, os seis homens e quatro mulheres irão acompanhar os vinte profissionais já activos na Suíça de expressão alemã, quebrando dessa forma um tabu duplo: o da sexualidade e da deficiência física. 





O projecto começou em 2002, quando a organização de apoio Pro Infirmis elaborava um programa educativo nesse sentido. Na época, a novidade havia tido tal impacto mediático, que inúmeros doadores decidiram anular suas doações. A justificativa: muitos qualificavam a assistência sexual para deficientes como uma "forma latente de prostituição". 





A consequência para a Pro Infirmis foi a perda de 400 mil francos em poucos meses e a decorrente decisão de interromper o projecto. Dois anos mais tarde, e seguindo o impulso da sua presidente Aiha Zemp – ela própria deficiente – a FABS decidiu retomar a ideia e inaugurou a primeira formação para assistentes sexuais. Hoje em dia, cinco anos após o lançamento, o balanço feito por Aiha Zemp é largamente positivo, mesmo se críticas ainda são ouvidas. 





Rejeitado nos países católicos, como a Itália, esse trabalho está longe de ser um pioneirismo helvético. Outros países, como a Holanda, Alemanha e Dinamarca, também têm serviços semelhantes. Já nos anos de 1980, eram formadas nos Estados Unidos e no norte da Europa profissionais para apoiar deficientes nos seus desejos sexuais. O trabalho chega mesmo a ser custeado pelos seguros de saúde em alguns países escandinavos. 





"Não temos um catálogo de apresentação", explica Catherine Agthe Diserens, presidente da SEHP. "Cada caso é único e deve ser avaliado separadamente para melhor compreender o que as pessoas que nos procuram necessitam e como podemos ajuda-las a se sentir melhor". Um diálogo que se constrói também através da ajuda de educadores e da família, a partir do momento em que o grau de deficiência o exige. 





Da massagem erótica às carícias, até o strip-tease ou masturbação: o leque proposto é extenso e responde simplesmente às necessidades de uma intimidade geralmente reprimida e mesmo estigmatizada. "Cada assistente oferece com empatia e respeito um pouco de ternura contra uma remuneração que vai de 150 a 200 francos por hora", relata Catherine Agthe Diserens. "Por vezes, o trabalho é simplesmente descobrir o prazer de reencontrar uma funcionalidade perdida após um acidente, enquanto que, em outras circunstâncias, a relação pode ir até uma relação oral ou a penetração." 





"Solicitar a ajuda de assistentes sexuais não é a solução para cada problema, mas isso permite cobrir um vazio, cuja existência até então era negada", lembra Aiha Zemp. 





Ao contrário da prostituição, o acompanhamento sexual de deficientes só pode ser iniciado após um trabalho pontual de educação, orientado pelo respeito ao outro, pela ética e a escuta. "Os assistentes sexuais devem ser pessoas equilibradas, conscientes da sua própria sexualidade e não sentir desconforto com a deficiência. Além disso, eles devem manter outro trabalho a tempo parcial. Também é preciso informar os próximos da sua escolha profissional", detalha Dieserens. 





"É uma experiência transtornadora. Colocamos tudo em questão: nossas ideias, nossa relação com o corpo e outros", revelava Jacques, um assistente sexual que acaba de receber seu diploma, durante uma entrevista à rádio. 





Casado, pais de três crianças, Jacques relata que sua esposa apoiou sua decisão com naturalidade, sobretudo devido aos limites fixados por ele próprio desde o início: "Me dedico ao corpo, à pele, aos órgãos dessas pessoas. Não posso lhes negar massagens, carícias íntimas, mas não chego à penetração. O beijo – e o resto – está reservado a uma só pessoa bem determinada na minha vida." 





A formação dura 18 dias, distribuídos por um ano, e acrescida de uma dezena de horas de trabalho em casa. Os custos chegam a 4.200 francos, o que mostra a motivação dos que escolhem o caminho. 





Apesar do reconhecimento de muitos, a formação continua sendo difícil de explicar à família e até mesmo a si próprio. O fato de que, de um ponto de vista legal, o trabalho de assistente sexual seja assimilado à prostituição e esteja impregnado de uma conotação negativa não facilitam. 





Mas para Aiha Zemp, esses profissionais estão apenas levantando o véu de um universo oculto, feito de desejos rejeitados e perturbações afetivas. Um mundo que deve ser abordado com um olhar diferente, ao se tratar de deficientes físicos. Uma diferença que tem um grande valor para aqueles que, como Jacques, conseguem transpor a deficiência e os temores que muitas vezes ela inspira para começar a escutar a necessidade íntima de ternura. 




_______________________________________________

Ilustração:
AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

_______________________________________________

PressAA


.

Exibições: 91

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço