O GARI DA MINHA RUA

 

Na minha rua tem um gari muito simpático e sorridente que faz questão de cumprimentar e conversar com os moradores. Ele é extremamente zeloso das suas atribuições e leva a sério a limpeza e varrição do local onde trabalha. Com sol ou com chuva lá está ele, diariamente, munido de vassoura, pá e container, cumprindo religiosamente as suas obrigações. O seu sorriso deixa à mostra uma dentadura alva que chama logo a atenção porque ele é de cor, e os dentes bem brancos são uma característica peculiar da raça negra. O que mais nele impressiona são a dedicação e o amor que tem pelo serviço, o que faz lembrar, por oportuno, as palavras singelas da Madre Teresa de Calcutá ao dizer que “o importante não é o que você faz e sim o amor com que você faz”. E olha que a nossa rua, repleta de frondosas amendoeiras, cujas folhas grandes e ovaladas caem, pelo menos, duas vezes por ano, formando sempre um tapete de folhas secas, dá realmente muito trabalho ao nosso competente varredor.

Os garis são admitidos mediante concurso público, pois a Comlurb é uma sociedade de economia mista onde a Prefeitura, juntamente com a empresa privada que explora o serviço da coleta de lixo, tem a mesma participação acionária. Assim, o nosso gari, por ser concursado, possui emprego garantido para o resto da vida. Comigo ele conversa, vez ou outra, o cotidiano trivial, coisas como previsão do tempo, futebol, “vai dar praia hoje” ou chegada de alguma frente fria.

Uma ocasião ele andou faltando alguns dias e fiquei meio preocupado pensando que estivesse doente ou sido transferido. Quando finalmente ele retornou, não tinha mais o sorriso, a sua marca registrada. Fui então saber que a sua mãe havia falecido. A tristeza no seu rosto era flagrante. Era uma perda irreparável e imaginei uma velha senhora (com cinco filhos, ou seja, uma família de cinco irmãos) que soubera tão bem criar suas crianças, hoje adultos, ensinando-lhes o caminho do estudo e do trabalho, além de coisas tão simples e valiosas como as de respeitar os mais velhos e dizer com educação um “bom dia”, “obrigado”, ou “com licença”. A pobreza e as dificuldades não são, portanto, entraves para uma pessoa ser correta e educada. O mundo seria realmente maravilhoso se, em vez da guerra, do ódio, da arrogância, da violência e da criminalidade, prevalecesse a paz, o amor, a humildade, o respeito e a fraternidade.

O gari da nossa rua, no contexto atual, é um exemplo de vida. Por isso fico muito orgulhoso de tê-lo como amigo.

 

Rio/2010

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Comentário de Marco Antônio Nogueira em 30 janeiro 2012 às 22:32

JORNAS,

Que bonita, amigo,

esta sua crônica.

Ah, se tivesse o 

"e-mail" do Bóris.

Qualquer dia lhe trago

aqui o caso do balé dos

garis de BH com uma

Promotora e eu.

Abraço,

Marco Nogueira

Abraço,

Marco Nogueira

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