Solidão atarefada e autoconhecimento, eis um caminho para a redenção

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Solidão
atarefada e autoconhecimento, eis um caminho para a redenção 

Fernando Soares Campos




Muitos são os conceitos sugeridos para
designar o sentimento de solidão, entre os quais podemos observar opiniões antagônicas
ou simplesmente díspares, porém complementares entre si. Isso acontece entre os
que exaltam os momentos de solitude, eventualmente necessários a qualquer ser
humano, ou mesmo entre aqueles que os abominam, temem e se esforçam para
evitá-los.

Existem os que acreditam que a solidão seja a
condição mais autêntica, digna e aprazível de se viver.

Vejamos alguns exemplos:

“Jamais encontrei companheiro que me fosse
mais companheiro que a solidão” (Henry Thoreau).

“A solidão é a sorte de todos os espíritos
excepcionais” (Arthur Schopenhauer).

“A mais feliz das vidas é uma solidão
atarefada” (Voltaire).

Em Thoreau podemos até identificar a fonte de
inspiração de Nelson Rodrigues ao dizer que “a pior forma de solidão é a
companhia de um paulista”. Do que certamente Vinicius de Morais discordou
quando disse que “mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”. E
Erasmo Carlos corrobora tal afirmação com o dito de sua avó: “Antes mal
acompanhado do que só”.

Schopenhauer, com essa frase aí, apenas
confirma a impressão que muitos dos seus ditos me causaram: tornou-se um velho
ranzinza; gênio, sim, mas ranheta. Muita gente acredita que a intolerância é
uma característica própria dos gênios, mas creio que, apesar de alguns deles
revelarem tal comportamento, isso, pelo contrário, turva a genialidade, impede
o gênio de manifestar suas ideias com clareza. Se a intolerância fosse atributo
da genialidade, a afabilidade seria a qualidade precípua da idiotia (idiota não
é afável, é subserviente). Evidente que ser tolerante não significa anuir a
injustiças ou comungar com todos os credos ideológicos. Ser tolerante é
suportar as adversidades sem assentir naquilo que se pode considerar injusto, é
saber identificar o que é relevante e reconhecer o momento oportuno da ação.

Voltaire me parece mais próximo da razão,
pois procurou dar sentido à solidão a que qualquer um de nós pode ser submetido,
voluntaria ou involuntariamente. Creio que, se conseguirmos preencher os momentos
de solidão com afazeres úteis, nem mesmo poderemos dizer que isso se
caracteriza como momentos de solidão. A verdadeira solidão só ocorre quando
sentimos que nós mesmos somos nossa pior companhia, angustiados pela falta de
resposta aos nossos questionamentos existenciais. Solidão pode ser a falta de companhia,
porém, mais que isso, é o vazio de ideias e a inação.

A frase de Voltaire pode ser considerada como
prescrição para o combate a um dos males que hoje assola a humanidade: a
depressão.

Solidão rima com meditação

Aproveitemos os momentos de isolamento ou
simples distanciamento do convívio social para nos concentrar sobre a análise
dos nossos próprios sentimentos, ideias e comportamentos. Tentemos conhecer um
pouco mais de nós mesmos.

A sentença “conhece-te a ti mesmo” é
invariavelmente reconhecida como uma máxima socrática, relativa à filosofia de
Sócrates, visto que ele a adotou como norteadora de seu comportamento, mas não
podemos atribuir a Sócrates a formulação do conceito veiculado por essa
expressão. Até mesmo a íntegra da sua construção gramatical (com os termos em
nosso idioma) está conforme o translado de inscrições registradas em períodos
anteriores à existência do consagrado filósofo grego. Portanto, não se trata
nem mesmo de paráfrase de Sócrates, menos ainda de sua própria conclusão por
raciocínio e autorrevelação (insight) nem por revelação mística. Nesse caso
específico, o mérito do pensador fica por conta de sua capacidade para
reconhecer a legitimidade do enunciado, que prescreve uma condição
imprescindível a que possamos identificar no nosso próprio comportamento
atitudes moralmente virtuosas ou degenerativas. Só assim podemos corrigir nossa
trajetória evolutiva, melhorar nossos relacionamentos interpessoais e nos
aproximarmos cada vez mais das verdades que possam nos esclarecer sobre a
realidade e propósitos de nossas existências.

Creio
que não gostamos de meditar sobre nós mesmos porque tememos descobrir que
permanecemos estacionados sobre escombros de desejos, sentimentos e conceitos
arcaicos, tudo recauchutado, com cara de novo, mas tão velho quanto os
primórdios da chamada civilização. Vivemos de aparências, compramos e vendemos
aparências.

Harmonia das funções mentais

Para compreender e aceitar as prescrições de
um “conceito”, seja “moral” ou “científico”, utilizamos toda a complexidade das
nossas funções mentais, em que se envolvam o processo cognitivo, a volição e a
afetividade.

Entretanto, para admitir a idealização de uma
mensagem “moralizante”, precisamos raciocinar empreendendo esforço necessário à
harmonização dos distintos elementos da nossa estrutura mental:

a)    
Cognição,
procedendo ao encadeamento lógico de nossos conhecimentos e experiências e explorando
ao máximo um conjunto de faculdades subsidiárias (atenção, percepção, memória e
imaginação);

b)    Volição estimulada por desejo autêntico e específico
propósito; e

c)    
Afetividade
sob controle, tentando harmonizar a relação entre os sentimentos e emoções e,
na medida do possível, reduzir suas intensidades e durações, minimizando,
assim, suas influências sobre o desejo ― impulso psíquico determinante da
atividade volitiva.

Creio, porém, que, nos processos de
compreensão e consequente aceitação de um “conceito científico” das chamadas
ciências exatas, o “controle da afetividade” não precisa ser exercido com o
mesmo rigor aplicado quando da interpretação de um “conceito moral”, visto que,
no caso científico, tendemos a mobilizar os sentimentos pelas suas faces
positivas (otimistas). Por exemplo: a coragem sobrepondo-se ao medo, podendo
assumir características de arrojo; a alegria afastando elementos geradores de
tristeza e desânimo, podendo atingir grau de euforia.

Na busca pelo aperfeiçoamento moral, nem
sempre podemos imprimir no desejo sentimentos com a mesma intensidade a que
estamos habituados (ou viciados) a manifestá-los, pois isso pode se constituir
em verdadeiras armadilhas mentais. E é por isso que, ao tentar nos conhecer a
nós mesmos, podemos fracassar sem perceber os subterfúgios em que nos enredamos,
em função da intervenção de elementos subconscientes.

“Depois de ter dado abrigo ao Mal, ele não mais pedirá que você acredite
nele” (Franz Kafka).

A
luta para domar o Mal dentro de nós mesmos é, provavelmente, a mais importante
virtude humana. Domar já seria um grande feito; extirpar é tarefa mais árdua,
além de perigosa, pois aquele que entre nós for identificado como um autêntico purificado
será consagrado líder dos demônios.

O esforço para praticar virtudes deve ser
precedido pela luta contra possíveis deformações que possam ter-se incorporado
aos nossos comportamentos. Se assim não procedermos, estaremos na condição de
quem quer ter saúde sem combater uma grave enfermidade que já ameaça a sua vida.

Se
algum de nós já não sente qualquer impulso para a prática do Mal, conforme os
conceitos ditados pela nossa consciência, contrapondo-o ao que possa vir a ser
o Bem, então esse alguém já não pertence à categoria humana, sublimou-se, já
alcançou esferas muito mais elevadas, extrapolou a perfeição moral relativa à
vida na Terra. Se estiver aqui entre nós, encontra-se na condição de
missionário divino (Sócrates dizia, com todas as letras, que era um enviado de
Deus, mas não se sentia um anjo purificado).

Como
um missionário divino, santificado, poderia viver entre nós, almas
potencialmente corruptas? Seria agindo como um ser ainda em conflito com a
formação do seu caráter, como nos encontramos aqui na Terra? Não. Ele seria compreensivo,
entenderia a fraqueza humana e, por isso, toleraria o convívio com o criminoso,
mas sem justificar o crime cometido.

Desconfie das virtudes

Certa
ocasião, eu ainda era muito jovem, meu analista me perguntou: “O ser humano ri
porque se sente feliz, ou se sente feliz porque ri? Choramos porque ficamos
tristes, ou ficamos tristes porque choramos?”

Naquele
momento tive o impulso de dizer que rimos porque nos sentimos felizes e choramos
porque ficamos tristes, mas me contive, pois outras indagações assomaram à
minha alma semipensante: “O homem fica feliz por suas vitórias no campo de
batalha, ou pela derrota do seu adversário? Ficamos tristes porque perdemos a
batalha, ou porque o adversário venceu?”

Aparentemente,
tudo isso aí tem o mesmo sentido. Mas as aparências enganam.

Aquele
que se autoproclama honesto até no controle de suas mais irreprimíveis emoções
diria que sua felicidade se concentra totalmente em suas próprias vitórias,
conquistas, feitos, méritos e supostas virtudes pessoais. Jamais admitiria que
um prazer mórbido insiste em comemorar o fracasso alheio; ou que, no recesso de
sua consciência, lamenta o triunfo de um daqueles a quem ele chama de “amigo”.

Ao nos voltarmos para dentro de nós mesmos,
busquemos, de imediato, entender que só evoluímos quando identificamos nossos
próprios pecados; não, o dos outros. Se encontrar alguma virtude, desconfie,
pois estamos vivendo a Era da Regra Três, em que menos vale mais, o avesso do
avesso das inversões de valores: quanto mais idiota mais aclamado.


Às
vezes algumas pessoas sentem-se tão incomodadas aqui nesta nave que erguem os
olhos, estendem os braços para o céu e suplicam ao Piloto: “Pare o mundo, que
eu quero descer!”. Prenhes de razão, pois há momentos em que tudo parece
perdido. Mas eu tenho feito exatamente o contrário: peço a Ele que me dê mais
um tempinho, me conceda só mais um átimo da eternidade. Preciso entender por
que e para que estamos aqui. Por que quero saber?! Bom... é... para poder...
é... quer dizer... Ah! Sei lá!


Fernando Soares Campos


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Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA


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