Escreve e sua escrita é suja, dizem... o papel está marcado pelas noites imaginadas; tudo é possível entre carnes, exceto dizê-las. Tudo é lícito, exceto a palavra. O crime, não está em se fazer jorrar e deitar sementes neste ou naquele lugar; mas em ser pronunciado; provando que o Marquês estava certo e as partes do corpo não são todas iguais; sendo umas puras e outras imundas.

Imunda é a boca que pronuncia, as mãos que deitam letras em folhas, como se fossem virgens prestes a ser defloradas.

O segredo é o não dizer; e a mais prosaica das famílias se manterá erguida sobre o mais forte e mais arcaico pilar moral, o silêncio;

Algum vício de organização obriga uns e outros a tratar indevidamente de temas que só deveriam existir em locais úmidos e privados. Um vício cujo preço da banição, ainda assim é pequeno, porque conta-lo é ainda mais lúbrico que o os mais terríveis íncubos e súcubos da imaginação. O devaneio excessivo mal adaptado só o será se ganhar ideogramas que lhe correspondam.

Corrompe; porque ao escrever desnuda e penetra ...o discurso é espada que rasga e sangra.

Escreve e ao escrever revela o corrupto mais do que o corruptor....É temida não porque o faça; mas porque o pronuncie, não porque o sinta, mas porque o traduza e não porque o deseje, mas porque o faz desejar.

São simples mãos que seguram delicadas bordas que se abrem sobre o inominável e que tocam espaços indizíveis de desrealização. Atormentam com o o regalo do entumescimento a um simples correr de olhos...são meros símbolos, desenhos que formam um prazer mais vivo que o próprio abismo e merecem reprovação.

Escreve e fere porque exerce o sagrado direito reservado somente ao violador. Viola, não porque compunge, estremece e inflama, mas porque articula... Faz-se temida, não porque faça mais do que narrar; mas exatamente porque a narrativa revela , como o negativo de antigas fotos, mais do que a própria foto e sim o olhar...

Invade, não porque adentra; mas porque se anuncia e ao se anunciar, a confissão deixa de ser fortuita para ser intenção. E por revelar o destino se faz proscrita antes mesmo de ser caminho...mostra a disposição.

Escreve e há de ser interrompida porque o coito é lícito, decifrar não.

Suja, eles dizem, porque hão de comer o fruto e ainda assim não o dizer; porque no inculto paraíso pecar é saber.

 

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