Testamento (1)

Manuel Bandeira


.

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

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Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

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(29 de janeiro de 1943)


Poesia extraída do livro "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2001, pág. 126.

***** *****

Manuel Bandeira (2)


"...o sol tão claro lá fora,
o sol tão claro, Esmeralda,
e em minhalma — anoitecendo."

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no Recife no dia 19 de abril de 1886, na Rua da Ventura, atual Joaquim Nabuco, filho de Manuel Carneiro de Souza Bandeira e Francelina Ribeiro de Souza Bandeira. Em 1890 a família se transfere para o Rio de Janeiro e a seguir para Santos - SP e, novamente, para o Rio de Janeiro. Passa dois verões em Petrópolis.

Em 1892 a família volta para Pernambuco. Manuel Bandeira freqüenta o colégio das irmãs Barros Barreto, na Rua da Soledade, e, como semi-interno, o de Virgínio Marques Carneiro Leão, na Rua da Matriz.

A família mais uma vez se muda do Recife para o Rio de Janeiro, em 1896, onde reside na Travessa Piauí, na Rua Senador Furtado e depois em Laranjeiras. Bandeira cursa o Externato do Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II). Tem como professores Silva Ramos, Carlos França, José Veríssimo e João Ribeiro. Entre seus colegas estão Sousa da Silveira e Antenor Nascentes.

continua aqui: http://www.releituras.com/mbandeira_bio.asp

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Fontes:

(1) "Testamento"

na interpretação do ator Juca de Oliveira

Programa Devaneio da Radio Band News FM
http://bandnewsfm.band.com.br/colunista.asp?ID=146

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(2) releituras

http://www.releituras.com/mbandeira_bio.asp


Exibições: 916

Comentário de Helô em 9 setembro 2010 às 23:48
Que bom você nos brindar com essas maravilhosas interpretações do Juca de Oliveira. Ah, Bandeira! Vou deixar pra você a minha preferida. Sempre que vou ao Rio e passo na Lapa, sinto Bandeira no ar.
Beijos.

Última Canção do Beco

Beco que cantei num dístico
Cheio de elipses mentais,
Beco das minhas tristezas,
Das minhas perplexidades
(Mas também dos meus amores,
Dos meus beijos, dos meus sonhos),
Adeus para nunca mais!

Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!

Beco de sarças de fogo,
De paixões sem amanhãs,
Quanta luz mediterrânea
No esplendor da adolescência
Não recolheu nestas pedras
O orvalho das madrugadas,
A pureza das manhãs!

Beco das minhas tristezas.
Não me envergonhei de ti!
Foste rua de mulheres?
Todas são filhas de Deus!
Dantes foram carmelitas...
E eras só de pobres quando,
Pobre, vim morar aqui.

Lapa - Lapa do Desterro -,
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A Conceição de Maria,
Que graças angelicais!)

Nossa Senhora do Carmo,
De lá de cima do altar,
Pede esmolas para os pobres,
Para mulheres tão tristes,
Para mulheres tão negras,
Que vêm nas portas do templo
De noite se agasalhar.
Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais,
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas.
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te
Adeus para nunca mais!
Comentário de Stella Maris em 10 setembro 2010 às 0:28
Bandeira! Que maravilha!!!

Enquanto a chuva cai


A chuva cai. O ar fica mole . . .
Indistinto . . . ambarino . . . gris . . .
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como o bailar.


Torvelinhai, torrentes do ar!


Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.


Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.


Volúpia dos abandonados . . .
Dos sós . . . — ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados
Que se sentem envelhecer . . .


Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas,
Para embalar a minha dor!


A chuva cai. A chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
As sementes que vão abrir!


Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
Que na mudez das terras fundas
Às vezes são tão infelizes!


E eu te amo! Quer quando fustigas
Ao sopro mau dos vendavais
As grandes árvores antigas,
Quer quando mansamente cais.


É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas-d'água!
Comentário de Stella Maris em 10 setembro 2010 às 0:29
Adoro esta poesia



Arte de amar


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.


Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 10 setembro 2010 às 3:43
Ô Helô

Beco das minhas tristezas!
Não me envergonhei de ti!
Manuel Bandeira por Juca de Oliveira
Coleção Poesia Falada vol. 18
Luz da Cidade

Beijos
Comentário de Helô em 10 setembro 2010 às 11:18
Ô Gilberto, assim eu choro!
Stella, que ótimas contribuições!
Beijos aos dois.
Comentário de Stella Maris em 10 setembro 2010 às 12:15
Helô .Creio , que já falei inúmras vezes isto aqui( tá até chato, rsrs)
o Bandeira foi o primeiro poeta que li, ainda na minha infância, e fiquei tão apaixonada...e desejei tanto fazer poesia,
ficava horas lendo num livrinho dele, a poesia A Estrela

A Estrela.

Vi uma estrela tão alta!,
Vi uma estrela tão fria!
vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por qur da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

( ah! como eu me deleitava com esta poesia, com a imaginação a mil)
Comentário de Gilberto Cruvinel em 11 setembro 2010 às 12:29
Olá Stella Maris,

Seu nome já é um nome poético, hein Stella.
O Bandeira é o poeta que parece que pertence à família da gente, parece próximo.
Eu lembro de ter lido poesias dele na infância num livro de poesias infantis que tínhamos em casa na minha infância.
Nesse livro, havia poesias da Cecília Meireles, do Vinícius e do Bandeira. Depois fiquei muito
tempo sem ler outros poetas até que, no colégio, descobri o Drummond. O Bandeira poeta com
tudo que tem de maravilhoso, eu descobri depois do Drummond.

E como você, eu e a Helô somos fãs, vão aqui duas das três poesias que você postou, na interpretação do Juca de Oliveira, mesmo CD do Beco: Manuel Bandeira por Juca de Oliveira
Coleção Poesia Falada vol. 18 - Luz da Cidade

A Estrela

A Arte de Amar

Beijos do Gilberto
Comentário de Stella Maris em 11 setembro 2010 às 12:51
brigadim.. Gilberto, será? que o mesmo livrinho de tua infância era o mesmo que eu tinha...
bjs.
Comentário de Helô em 11 setembro 2010 às 13:08
Stella, pode falar quantas vezes quiser, nunca será demais. No meu caso, acho que o primeiro poeta que tive contato foi Olavo Bilac. Mas quem não se lembra do café-com-pão manteiga-não? E o Gilberto, com a sua enorme gentileza, já encontrou a "Estrela" em sua homenagem. Mas isso aqui tá bom demais e acho até que alguém poderia criar um tópico chamado "canto da poesia". Reuniríamos tudo o que mais gostamos no tópico.
Vou procurar algumas coisas que recebi por e-mail e volto mais tarde.
Beijos.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 11 setembro 2010 às 14:42
Helô e Stella Maris estão convidadas a vir a Sampa para a exposição

Fernando Pessoa, plural como o universo


A exposição está em cartaz na sala de exposições temporárias do Museu da Língua Portuguesa
De 24 de agosto de 2010 até 30 de janeiro de 2011
De terça a domingo, das 10 às 18h
Museu da Língua Portuguesa
Praça da Luz, s/nº, Centro – São Paulo - Metrô Luz

http://www.visitefernandopessoa.org.br/

Mais informações no site http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/ ou pelo tel. (11) 3326-0775

A bilheteria fica aberta de terça a domingo, das 10 às 17h. Nas últimas terças-feiras de cada mês, o museu permanece aberto até 22h. O ingresso para visitar o museu e a exposição custa R$6,00. Estudantes com documento pagam meia entrada, e pessoas com 10 anos ou menos e com 60 anos ou mais não pagam ingresso. A entrada também é gratuita para professores de qualquer rede pública. Aos sábados, a visitação é gratuita

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