Túnel pode ser solução contra enchentes

LILIAN MILENA
Da Redação - ADV


Construção de um túnel, abaixo do Tietê, pode evitar novas enchentes. O projeto, estimado em US$ 500 milhões, promete melhorar a qualidade da água e transporte de sedimentos do rio.

Nos últimos seis meses a cidade de São Paulo vem registrando um volume de chuvas acima do esperado, como informa o técnico em meteorologia do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), Adilson Nazário.

Veja a relação entre volume médio previsto e o total registrado até novembro:


“Em dezembro estimamos um total de 201 milímetros. Mas até às 13h do dia 14 de dezembro, ou seja, faltando 17 dias para o término do mês, choveu um total de 161 milímetros. Então acreditamos que até o final do ano o volume registrado será superior, acompanhando a tendência”, completa Nazário.

Na enchente do dia 8 de dezembro, que resultou na morte de seis pessoas e mais de mil desabrigados na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), o volume registrado até a meia-noite foi de 77,4 mm – o maior, em 24 horas, desde que o CGE foi fundado, em 1999. Naquele dia foram formados 124 pontos de alagamento, sendo 68 intransitáveis.

O aumento da precipitação das chuvas não deve ser considerado único e principal responsável pelas enchentes sofridas nos grandes centros urbanos. Existem outros fatores envolvidos, como a construção irregular nas margens dos rios, acumulo de lixo e terra nas margens e calhas (reduzindo o espaço para receber água das chuvas ou de outros rios), além da impermeabilização dos solos.

Há registros de enchentes na região paulista desde o final do século XIX, quando a prefeitura nomeou a primeira comissão para estudar as várzeas do Tietê e Tamanduateí. O crescimento acentuado das áreas urbanizadas obrigou a formulação de sucessivas obras e projetos, um dos maiores foi apresentado em 1924 pelo engenheiro e sanitarista, Saturnino de Brito: a retificação do rio Tietê, entre Osasco e a Barragem da Penha.

O mais recente projeto é o Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê (2006-2010), com um orçamento reservado de R$ 1,1 bilhão, para os quatro anos – o primeiro Plano Diretor foi estabelecido em 1998, desde então foram construídos 45 piscinões, 40,5 quilômetros de rebaixamento da calha do rio Tietê, canalização de rios e construção de barragens ao custo de R$ 1,7 bilhões, aproximadamente. Mesmo assim a capital continua sofrendo com alagamentos.

Para o geólogo e professor visitante do Instituto de Geociência da Unicamp, Luiz Vaz, um dos motivos é o desrespeito às principais recomendações do Plano Diretor, como o de impedir a urbanização da várzea do Tietê acima da barragem da Penha, localizada pouco antes do início da rodovia Ayrton Senna. “Essa recomendação não tem sido atendida. A própria USP a descumpriu ao instalar na região o campus USP-Leste”, completa.

A preservação da várzea é fundamental para impedir desastres urbanos, por um motivo obvio: são as primeiras áreas a sofrerem alagamentos a partir da alta dos rios, além de serem importantes para absorção da água das chuvas, contribuindo para controlar a vazão. O poder público procurou corrigir os impactos da urbanização aprofundando a calha do Tietê, ainda assim, não foi o suficiente.

Desde que o alargamento e aprofundamento da calha começaram, há duas décadas, a vazão do rio passou de 650 metros cúbicos por segundo (m3/s), para 1.200 m3/s. Vaz afirma que o rebaixamento está no limite máximo e a capacidade do rio é mantida com auxílio de dragagens (cerca de 400 mil toneladas de sedimento são retiradas anualmente de dentro do rio) e construção de piscinões em pontos estratégicos da RMSP, mas “com poder localizado para minimizar os impactos das chuvas”, diz.

O projeto

Para eliminar as enchentes seria necessário ampliar a velocidade das águas do Tietê – um dos pontos críticos é a região de Barueri onde as rochas que formam o ‘chão’ por onde o rio passa retardam o fluxo. O professor Vaz propõe a construção de um túnel, de tamanho similar ao túnel de metrôs, com 37 quilômetros de extensão e desemboque na foz do rio Pinheiros, aproveitando a declividade natural na região da altura do Cebolão (complexo viário que faz ligação entre as marginais Tietê, Pinheiros e a Rodovia Castelo Branco).

O túnel permitiria descarregar 350 m3/s de água. Entretanto a implantação da obra não eliminaria a necessidade de retirar os sedimentos acumulados nas calhas - o projeto conta com a construção de tubulações para facilitar o manejo dos resíduos, e em vez do uso de caminhões para transportar os sedimentos, as dragas lançariam o material nas tubulações ligadas diretamente a uma área de contenção.

O lixo pesado (geladeiras, sofás, pneus, etc) passaria pelo túnel, que no projeto, desemboca num reservatório situado numa zona rural – entre Rasgão e a Cidade de Salto. Para completar o sistema, seria necessária a instalação de um aterro sanitário para dispor de modo adequada o lixo – podendo parte ser reciclada, e parte transformada em energia.

A quantidade de água que o rio Tietê recebe é controlada por uma barragem localizada na cidade de Barueri, chamada Edgar de Souza. Quando existe risco de enchente as comportas são abertas levando cerca de duas horas para que o nível de água comece a diminuir na altura do Cebolão. Mais um argumento a favor da construção do túnel, segundo Vaz, pois como o projeto é localizado naquela área, em apenas dez minutos o nível da água declinaria. O custo estimado para dessa obra é de US$ 500 milhões.

Em nota de esclarecimento, após as enchentes do dia 8 de dezembro, a Secretaria Estadual de Saneamento e Energia (SSE) informa que o principal responsável pelo desastre foi o mal funcionamento de uma bomba do sistema da usina de Traição, no rio Pinheiros, que comprometeu 25% (ou 70m3/s), da capacidade de bombeamento das águas que o Tietê recebe – o governo estuda instalar duas bombas adicionais no âmbito do plano estadual.

Ação conjunta

De 2007 a 2010 o governo de São Paulo pretende investir R$ 606,1 milhões na implantação do Plano Diretor de Macrodrenagem do Alto Tietê e manutenção da calha. Para o geólogo e ex-presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Álvaro Rodrigues dos Santos, o programa de combate às enchentes estabelecido no estado é incompleto, priorizando grandes obras (ampliação das calhas e construção de piscinões):

“Há um elenco grande de medidas não estruturais, como a ‘desimpermeabilização’ da cidade (calçadas, valetas, estacionamentos, pátios, ruas drenantes, bosques florestais, por exemplo), o armazenamento de águas de chuva em reservatórios empresariais e domésticos, a redução do assoreamento das drenagens através do combate à erosão, e ao lançamento irregular de entulho da construção civil e lixo urbano”, propõe.

Ou seja, o processo para impedir as enchentes é complexo e necessita de um plano que envolva outros pontos de políticas públicas, dentre eles, os programas habitacionais às famílias de baixa renda. “Essa população é obrigada, por razões de orçamento, a construir moradias em fundos de vale e encostas de alta declividade, pelo que se instalou um verdadeiro caos geológico nas zonas de expansão urbana. Tudo isso tem consequências desastrosas para a drenagem urbana e está na raiz das causas de nossas enchentes”, diz.

O programa de combate às enchentes deve incluir os 39 municípios da RMSP. O professor do Departamento de Projeto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Paulo Pellegrino, diz que o modelo de concentração e condução das águas, proposto no Plano de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê, já provou que não é eficaz – os projetos estariam presos aos dogmas da engenharia de tráfego de visão mais restrita.

“Se pautar apenas na construção dos piscinões, como ocorre hoje, vai ser apenas tentar resolver da mesma forma unifuncional e emergencial o modelo implantado, além de resultar em cicatrizes urbanas que acabam com qualquer possibilidade de um sentido de vida urbana. É só ver no que se transformou o centro de Taboão da Serra, depois da implantação de piscinões: um grande vazio inóspito”, acrescenta.

Para Pellegrino, o novo Plano Diretor (2006-2010) não apresenta grandes mudanças em relação às obras realizadas nos últimos 11 anos na RMSP. Dentre as estratégias da política de governo do estado está a de impedir que a Marginal Tietê volte a alagar – o conjunto de avenidas laterais ao rio está entre as principais rotas de transporte do estado. A Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET) calcula que todos os dias mais de 1 milhão e 200 mil veículos trafegam nos dois sentidos da Marginal, via de acesso às rodovias Castelo Branco, Anhanguera, Bandeirantes, Presidente Dutra, Fernão Dias e Ayrton Senna.

Até o fechamento desta matéria não conseguimos retorno da Secretaria de Energia e Saneamento do Estado de São Paulo.

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