No inicio foi uma pontada dolorida nas costas. O tal de lumbago ou lombalgia, sei lá! Só sei que doeu “pra daná”! Depois, aquela dor foi descendo em direção ao Ilíaco e à articulação do Femur e chegou quase me matando, à região da panturrilha. Não deu para suportar. Eu gritei “papai”, eu gritei “mamãe”mas ninguém me socorreu, a coisa doeu... doeu... doeu! Finalmente, minha filha e minha esposa levaram-me ao pronto socorro. Fui atendido rápido. Um médico meio velhusco, taciturno, olhou-me de uma maneira sorumbática perguntando-me: O que houve? Ao ouvir as queixas, chamou uma enfermeira e mandou medir minha pressão e minha glicose. Escreveu uma receita e mandou aplicar-me um analgésico seguido de um soro. Eu teria que ficar hospitalizado.

Já acamado, à espera do tal sôro, vi entrar uma enfermeira gorducha, de fartas nádegas, carrancuda, com uma seringa na mão, virou-me de bruços e começou a manusear minha parca bunda à procura de um bom local para enfiar aquela agulha enorme. A impressão que eu tive é que ela queria que eu fosse tão calipígio quanto ela e pensava que eu era o único culpado de sua insatisfeita libido ou de sua mal dormida noite. Fiquei ali hospitalizado até a tardinha, quando me levaram para casa. De maca, na ambulância. Eu não conseguia andar. Puta merda! Como doia!

           Quem tem padrinho não morre pagão! Quem tem filhos amorosos e generosos também não. Meus dois filhos levaram-me para uma clínica de repouso para diabéticos, em uma estância hidromineral, cujas águas termais, radiotivas, são benéficas a hiperglicemicos. Num apartamento amplo que me fez lembrar daquele aposento lá da rua Corrientes três, quatro oito, pois tinha, além de uma enorme TV, uma “vitrola” tocando velhos tangos e canções e um gato de porcelana, na cômoda, mudo, assistindo eu entrar. Havia também uma cama hospitalar, ajustável por uns botõezinhos ao meu alcance, e um colchão de água, maciinho... maciinho. Deitado ali, eu tinha a impressão que estava suspenso no ar. Foi fácil dormir. Ah!... Que noite bem dormida!

         Oito horas da manhã, acordo com três batidinhas na porta e uma carinha risonha dizendo: Boom diaaaa! Posso entrar? Ao receber o sim, ela entrou. Uau! Que visão! Uma enfermeira loira em lindo uniforme azul claro, com aquela graciosa touquinha que elas usam, uma saia mais curta que o normal e uma blusinha mal abotoada de onde parecia saltar um par de volumosos peitos. Fartum pectus, belli gluteum. Pareciam dois pombos esculpidos em alabastro. Quando ela se aproximou, num andar lânguido e um sensual sorriso, com alguns aparelhos num carrinho, tive a impressão de estar vendo a Kim Novac em Sortilégio de amor. Vamos medir a pressão? Foi ela dizendo. Debruçou-se ligeiramente e enfiou o tal aparelho no meu braço. -- Tá um pouquinho alta. Vamos tomar um comprimido. E colocou a pilulazinha na minha boca e deu-me água a beber. Pensei cá comigo: como não estar alta, com este par de peitos e essas tremendas coxas à maravilhar-me a vista? Aí, ela pegou um glicosimetro e um lancetador, segurou minha mão delicadamente e disse: vamos ver a glicose. Nem senti a lancetada no dedo. --hum... hummm! 169. Sugestivo, mas um pouquinho alta. Vou aplicar insulina. Dito e feito. Aplicou no braço. Esse tempo todo ela estava sentada de lado, na cama. Fez uma carícia ligeira no meu rosto, levantou-se dizendo: vou mandar servir o café.

          Toc...toc...toc. Outra batidinha na porta. --Oiêêê... Ta com fominha? Hora do café. Desta vez, a outra loira me fez lembrar da Martine Carol em “L'Infirmière”. Mesmos peitos estourando os botões da blusa, mas o andar um pouquinho mais sinuoso. Veio empurrando um carrinho, sentou-se na beirada da cama e colocou um porta bandejas sobre meu colo. Um pratinho com uma maçã e uma pera, descascadas e cortadas em fatias. Ela espetava uma fatia daquelas, de cada vez, com um garfinho e colocava na minha boca. Depois das duas frutas, pegou torradas de pão integral e perguntou: --capuchino ou chá? --Capuchino? Sou diabético. --Problema não. O chocolate ao leite, é diet e o café você adoça com ciclamatos. O chantyly também é diet. Lá se foram as torradas e o capuchino. Completei com uma chávena de chá e duas bolachinhas. --Vou mandar te pegarem. Vamos tomar um solzinho. Sintetizar vitamina D. Entraram dois latagões, que me colocaram em uma cadeira de rodas, com um prolongamento acoplado, de maneira que minha perna ficou firme e estendida ao mesmo nível do quadril. Empurraram-me até um pátio gramado e deixaram-me sob um enorme guarda-sol, onde já estava a loiraça parecida com a Kim Novak, espairada em uma espreguiçadeira de lona. Enquanto os dois mocetôes se afastavam, fiquei pensando: não é o meu caso, mas parece que tem para todos os gostos! A loira levantou-se e perguntou: --Quer ler? Quer ouvir música? Colocou dois fonezinhos em meu ouvido e entregou-me um aparelho, do tamanho de um celular, em cujo visor eu poderia escolher o que ouvir. Achei o Arthur tocando o hino do Fluminense e fiquei ouvindo. Ela entregou-me uma lista de livros para eu escolher dizendo que o que eu quizesse ela iria buscar. Escolhi As maluquices do Imperador, de Paulo Setubal, pois fiquei imaginando a semelhança que devia ter a outra, a do capuchino, com a Domitila do D. Pedro.

            Onze e meia, a Kim chamou os latagões novamente e mandou-os levar-me de volta ao quarto dizendo: --Agora tem os ultra-violetas. Faz mal á pele.Vamos para dentro. Colocaram-me novamente na cama, inclinada a quarenta e cinco gráus e saíram. Fiquei lendo e ouvindo música. Mais ou menos uma hora depois, foi um baita susto. Entraram afoitamente, uma deusa de ébano que me fez lembrar da Halle Berry, da Dorothy Dandridge e da Eliana Pittiman ao mesmo tempo. Uma loira com a cara e o corpo da Cameron Dias e uma morena que para mim era a Juliana Paes disfarçada de enfermeira. Exclamei extasiado: São as Charlie's angels? Elas entraram empurrando um tipo de frigo-bar, dizendo assanhadamente: --Hora do almoço... hora do almoço. Com as mesmas blusas mal abotoadas, foram se revesando ao meu lado na cama e dando-me de comer. Só proteinas e sais minerais. Nada de glucosidicos. Veio a Cameron e serviu-me torradas com patê de fígado. Não era foie-gras, era patê de fígado de galinha caipira. Depois, a Juliana pegou um prato onde tinha um bife de filé, mal passado, à inglesa. Ela cortava e colocava os pedaços na minha boca, vagarosa e delicadamente. Quando acabou o bife, a deusa de ébano debruçou-se para o meu lado, com uma azeitona preta num palito: --Abre a boquinha... e colocou a azeitona lá dentro. Ainda não sei se era grega, italiana ou azapa. Só sei que comi várias. Acabaram de servir-me e foram saindo e dizendo: --Hora da sesta, descanse em paz, logo voltaremos.

          Agora, quatro horas da tarde, com a dor da perna controlada, estou eu aqui, com o lap-top no colo, contando minhas desventuras e desditas para os amigos... Ai... Ai... Ai... Vou ter que parar! Lá vem as três panteras, de biquinis, para me levar à piscina térmica. Vão me fazer uma hidro-massagem! Oh céus!... Oh dia!... Oh azar!...

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