Sexta-feira assisti o filme de Almodovar - A pele que habito. Doença mental, Violência sexual, homossexualismo latente, transexualismo. O puro é capaz de abjeções inesperadas e totais e o obsceno, de incoerências deslumbrantes. Somos aquela pureza e somos aquela miséria. Ora aparecemos varados de luz, como um santo de vitral, ora surgimos como faunos de tapete . Almodovar nos obriga a encarar o santo e o fauno dentro de nós. E como Nelson Rodrigues, Almodovar parece mais conservador que provocador já que quando o doentio Dr. Robert encontra ou quase encontra o prazer e a felicidade, morre pelas mãos do seu objeto de desejo. Talvez retrógado e moralista ou simplesmente Almodovar, aquele que vai além do óbvio. O filme não trata de gênero, não trata de preconceito e nem mesmo passa pela questão da sexualidade (tá...ele passa, mas não se trata disto). Vicente sofre tortura psicológica, enfrenta a fome, o medo e o sofrimento físico. Operado, perde a identidade sexual; seu corpo inteiro recriado como uma bela e desejável mulher. Durante anos sofre com uma nova pele e escreve incontáveis vezes nas paredes do quarto em que foi aprisionado: -Eu respiro. Violentado (de muitas formas) por fim mata seu carcereiro para apresentar-se novamente á própria mãe como Vicente. O filme agarra as entranhas da platéia que entre tensa, enojada e deliciada acompanha as várias faces da demência e violência opressivos a cada cena. O mais importante está ali para quem puder ver- um lugar seguro dentro de Vicente, intocado pela doença, pela violência e pela dor. Vera é linda, quase perfeita em sua doçura triste e pungente; mas em seu olhar devastador sobrevive Vicente. Como ele, todos temos um lugar seguro dentro de nós, embora em nossas existências busquemos incessantemente palavras seguras, gestos confiáveis, empregos estáveis. Quando enfrentamos, de diferentes formas as mudanças que a vida nos impinge, em alguma parte intocada sobrevivemos agarrados em recordações de infância, a um grande amor, pequenas rotinas familiares ou objetos preciosos e reconfortantes. Vicente encontrou um lugar seguro dentro de si mesmo e apesar de Vera. Quem não encontra este lugar perde-se, transforma -se em outra coisa ou coisa nenhuma. Lembrei com o filme de uma música de Belchior de que gosto muito: Coração Selvagem: "Meu bem, mas quando a vida nos violentar...Pediremos ao bom Deus que nos ajude...Falaremos para a vida: Vida, pisa devagar meu coração cuidado é frágil;" Recordei também que a vida quase sempre acelera rápida e dos momentos de dor em que sentei sozinha a frente de uma janela contemplando a cidade, nos momentos em que entre lágrimas acreditei firmemente que jamais encontraria um lugar seguro, já o havia encontrado e não sabia. Existe um lugar seguro dentro de mim e mesmo que me arranquem a pele (e creiam já a arrancaram de muitas formas), mesmo que me arranquem o coração aos safanões...ainda assim estarei protegida, no conforto de sólidas certezas. Pode-se violar uma pessoa de muitas formas e já pedi muitas vezes á vida para pisar devagar ..(.a música não me sai da cabeça)....mas viajei muitas, incontáveis vezes a este misterioso lugar que me permitiu seguir em frente e brigar de novo, amar de novo, sofrer de novo...viver. Eu sou Vicente, ainda que pareça Vera ou poderia ser Vera ainda que em pele de Vicente. A vida nos empresta muitas peles e em muitas delas entramos assim, a força, sofrendo dores excruciantes, e ainda assim respiramos. Não necessitamos escrever milhares de vezes pelas paredes que respiramos ainda, que ainda somos quem somos- desde que possamos ler em nós mesmos as palavras reconfortantes. Falo por mim que sempre tive uma necessidade infinita de segurança e a cobrei como um agiota ganancioso de muitas pessoas com quem convivo só para me sentir abandonada e frustrada. Encontrei o lugar seguro dentro de mim ou o reconheci finalmente. Quando a dor é muita...eu respiro. E não há quem viole este local precioso para onde viajo com freqüência e onde me sinto a salva não importa a pele que habite.

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