UM POUCO DA HISTÓRIA DO ALFABETO CIRÍLICO



Para conhecer um pouco da história do alfabeto cirílico, também conhecido como "alfabeto russo", é preciso retroagir no tempo a 1.300 anos atrás. Antes, etretanto, deve ser observado que o cirílico não é utilizado apenas na Rússia, mas também em outras línguas eslavas, como o búlgaro, o macedônio, ucraniano, bielorrusso, sérvio, croata (ou sérvio-croata)(1), isto para não falar em línguas extintas, como o ruteno (que gerou o bielorruso). Deve ser lembrado, ainda, que o sérvio-croata é o idioma falado (com algumas variações) na Sérvia, República de Montenegro, Croácia, Bósnia e Herzegovina.

 Além destes povos eslavos, o alfabeto cirílico é utilizado, também, por povos não-eslavos da ex União Soviética, como os cazaques, os uzbeques, quirguiz e tadjiques, além dos mongóis, sendo o terceiro alfabeto da União Européia.

Voltando à história propriamente dita do cirílico, vamos voar não só no tempo, mas também no espaço, indo parar na pequenina e linda Bulgária que, há 1.300 anos atrás era dominada pelo Império Bizantino(2).Na época o país ainda não existia como um Estado e era ocupado pelos Trácios e Proto-Búlgaros(3), além, é claro, dos romanos. No ano de 681, foi firmado um tratado de paz entre os proto-búlgaros e Império, que resultou no reconhecimento da existência do Estado Eslavo Búlgaro, com capital na cidade de Pliska, com fotos a seguir.




A maioria da população do novo estado era eslava, mas seu rei -"Khan(4) e parte da aristocracia não o eram e por isso o novo estado foi chamado apenas "Bulgária". Com o passar do tempo, os grupos étnicos se miscigenaram, ou seja, trácios, romanos e proto-búlgaros, nascendo aí o povo búlgaro, que desde o início teve que lutar muito para manter sua hegemonia, tanto contra o Império Bizantino, quanto contra povos vizinhos. Com a conversão do Khan ao Cristianismo, em 865, o país passou a ter o reconhecimento internacional (antes era chamado, assim como os demais povos eslavos, de "bárbaro" e "pagão", por não aderir à religião dominante então).

Nesta época entra em cena Kirill (usualmente traduzido para Cirilo) e Miefodiy (traduzido para Metódio. Sou contra a tradução de nomes próprios (nunca vi ninguém falar João Lenon ou Jorge Bush), daí eu usar seus nomes originais.Os dois tiveram um papel fundamental na difusão do Cristianismo nos Bálcãs e na criação de uma cultura propriamente búlgara.

Kirill e Miefodiy eram dois irmãos, nascidos em Salônica(5), então pertencente à Macedônia desde sua criação, em 316 a.C. Por sua vez, Macedônia havia sido conquistada pela Bulgária.Os macedônios eram eslavos também, e foram conquistadores da Grécia.  Logo, búlgaros ou macedônios, os irmãos são eslavos.

Os dois eram filhos de um alto funcionário Bizantino, Kirill foi um dos sacerdotes mais cultos de Constantinopla e grande divulgador da fé cristã, empreendendo viagens ao mundo árabe e a diversas outras regiões com o fim de divulgação.


 Miefodiy foi governador de uma província bizantina e virou monge, retirando-se para um mosteiro da Ásia Menor. Lá, os dois irmãos se encontraram e viveram por dez anos, trabalhando: Kirill criou o alfabeto glagolítico em 855, a fim de traduzir a bíblia para as línguas eslavas. Trata-se do mais antigo alfabeto eslavo que se tenha conhecimento.


O nome "glagolítico" vem da palavra glagól, que em búlgaro antigo significava palavra (no russo e no búlgaro atual significa "verbo"). Assim, o termo glagolítico se referia aos  "sinais, ou os símbolos que falam". Ele possuía 43 letras, 24 das quais se derivaram da letra cursiva usada no alfabeto grego da idade média, só que mais bem desenhadas. No campo das suposições, tem-se que as letras ш (cha) e щ (shcha) e talvez a tsa  (ц)tenham vindo do hebraico: tsa(em hebraico צ (como na palavra Tsadey (gafanhoto) ; cha, como o שׂ( "shin" -dente em hebraico). Os fonemas representativos destas letras não existiam em grego, apenas em línguas eslavas.Aventa-se que alguns dos caracteres foram apreendidos nas viagens empreendidas por Kirill, em suas campanhas de divulgação do Cristianismo.

Importante ressaltar o fato de que, na época da criação deste alfabeto, havia grandes diferenças nas línguas faladas pelos diversos povos eslavos. Para criar um alfabeto que viabilizasse  traduções, os dois irmãos se basearam  no idioma dos eslavos búlgaros.Assim, vamos "dar a César o que é de César e aos búlgaros o que deles é: eles são, realmente, os pais do alfabeto cirílico, por vezes chamado de alfabeto russo apenas por que, dentre os que usam tal alfabeto, a Rússia é a de maior influência cultural.


Uma vez criado seu alfabeto, os dois irmãos foram enviados por Bizâncio ao Principado da Grande Morávia(6), território habitado por eslavos sob influência do clero alemão. Foram recebidos com hostilidade, sendo denunciados "por pregar a palavra de Deus em língua eslava", violando o dogma de que a fé cristã só podia ser transmitida em três idiomas:hebraico, grego e latim. Kirill e Miefodiy partiram, então, para Roma, onde foram "se explicar" e defender o direito do povo eslavo usar sua própria língua nos serviços religiosos. Kirill morreu por lá mesmo e Miefodiy conseguiu regressar à Grande Morávia, onde faleceu mais tarde. Seus discípulos foram duramente perseguidos pelo clero alemão. Três deles conseguiram fugir para a Bulgária, servindo "sob medida" ao príncipe Boris, interessado que estava em criar uma igreja própria, adotando a língua eslava em seu cerimonial.


Assim, Kliment, Naum e Anguelarii, os três discípulos de Kirill e Miefodiy, continuaram sua obra, sendo que Kliment criou a versão definitiva do alfabeto cirílico, eliminando algumas letras, simplificando o glagolítico, que evoluiu para o cirílico, em sua versão atual, assim batizado em homenagem a Kirill (em russo, chama-se "kirillitsa" e em búlgaro e macedônio idem, apenas com um L a menos).

Os dois irmãos foram canonizados pela igreja ortodosa e têm a devoção dos búlgaros, sendo respeitados, inclusive, pelos ateus.

Veja, abaixo, o alfabeto búlgaro, seguido pelo russo, apenas a título de comparação. Reparem que o búlgaro não tem o ё (yo), diferença básica, pelo menos no quesito de letras. Quanto à pronúncia tem lá suas diferenças, algumas até grandes. Por exemplo, o ы búlgaro é de pronúncia muito mais difícil do que o russo, mas aqui já estou entrando em digressão, o que me faz colocar um ponto final no post, deixando com você  a curiosidade (pelo menos, espero), caso estude russo, de pesquisar o cirílico de outros países eslavos. Interessante é!.

Alfabeto cirílico da Bulgária
А а
/a/
Б б
/b/
В в
/v/
Г г
/g/
Д д
/d/
Е е
/e/
Ж ж
/j/
З з
/z/
И и
/i/
Й й
/j/
К к
/k/
Л л
/l/
М м
/m/
Н н
/n/
О о
/ɔ/
П п
/p/
Р р
/r/
С с
/s/
Т т
/t/
У у
/u/
Ф ф
/f/
Х х
/x/
Ц ц
/ʦ/
Ч ч
/tʃ/
Ш ш
/ʃ/
Щ щ
/ʃt/
Ъ ъ
/ɤ̞/, /ə/
Ь ь
/◌ʲ/
Ю ю
/ju/
Я я
/ja/

 Alfabeto cirílico russo:
А
/a/
Б
/b/
В
/v/
Г
/g/
Д
/d/
Е
/yɛ/
Ё
/yo/
Ж
/ʐ/
З
/z/
И
/i/
Й
/y/
К
/k/
Л
/l/
М
/m/
Н
/n/
О
/o/
П
/p/
Р
/r/
С
/s/
Т
/t/
У
/u/
Ф
/f/
Х
/x/
Ц
/ʦ/
Ч
/ʨ/
Ш
/ʂ/
Щ
/ɕː/
Ъ
/-/
Ы
/ɨ/
Ь
/◌ʲ/
Э
/e/
Ю
/iu/
Я
/ia/


_______________________________________________

Notas:

(1) Idioma falado (com algumas variações) na República de Montenegro, Croácia, Bósnia e Herzegovina.
(2) Império romano do oriente, que sobreviveu à queda de Roma.
(3) Povo eslavo do Sul, de origem asiática e turca.
(4) Palavra de origem mongólica e turca e que significa líder tribal.
 (5)Cidade construída em 316 d.C por Cassandro, da Macedônia. Foi anexada à Grécia, como "prêmio" da primeira guerra dos Bálcãs, em 1912- foto a seguir.


 6)Correspondente aos territórios ocupados atualmente pela República Tcheca, Eslováquia e parte da Hungria.

Fontes de pesquisa: 

- Livro "Bulgária: autogestão e socialismo", de Ivan Godoy, ed. Alfa Omega

- Site http://www.hebraico.pro.br/

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Comentário de Marco Antônio Nogueira em 15 março 2012 às 18:19

MILU.

Parabéns pela riquíssima aula.

Já conhecia alguma coisa

sobre o assunto, mas o

que você agora nos trouxe

é valiosíssimo.

Tomo a liberdade destacar:

1)

Uma vez criado seu alfabeto, os dois irmãos foram enviados por Bizâncio ao Principado da Grande Morávia(6), território habitado por eslavos sob influência do clero alemão. Foram recebidos com hostilidade, sendo denunciados "por pregar a palavra de Deus em língua eslava", violando o dogma de que a fé cristã só podia ser transmitida em três idiomas:hebraico, grego e latim. Kirill e Miefodiy partiram, então, para Roma, onde foram "se explicar" e defender o direito do povo eslavo usar sua própria língua nos serviços religiosos. Kirill morreu por lá mesmo e Miefodiy conseguiu regressar à Grande Morávia, onde faleceu mais tarde. Seus discípulos foram duramente perseguidos pelo clero alemão. Três deles conseguiram fugir para a Bulgária, servindo "sob medida" ao príncipe Boris, interessado que estava em criar uma igreja própria, adotando a língua eslava em seu cerimonial.


2)

Os dois irmãos foram canonizados pela igreja ortodosa e têm a devoção dos búlgaros, sendo respeitados, inclusive, pelos ateus.


Comentário de milu duarte em 15 março 2012 às 18:23

Oi, Marco Antonio, muito obrigada pela participação. Valeu mesmo!!!

Comentário de Ari Silveira dos Santos Filho em 16 março 2012 às 18:22
Milu,

Nomes de pessoas normalmente não se traduzem, mas há casos em que isso ocorre: nomes de alguns vultos históricos, personagens bíblicos, monarcas e santos, por exemplo. Ninguém chama o rei Henrique 8.º de Henry ou São Longuinho de Longinus, por exemplo.

É um critério parecido com o usado pelos jornais para escrever o nome de uma figura pública viva ou recém-falecida da forma como está na certidão de nascimento e grafá-lo de acordo com a ortografia vigente quando se trata de alguém que morreu há muitos anos. Assim, Vinícius de Morais, quando vivo, era Vinicius de Moraes; Antônio Carlos Jobim, quando vivo, era Antonio; Luís Vaz de Camões era Luis; e assim por diante.

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