Uma Noite Especial Para a Cultura da Cidade de Nossa Senhora das Dores-Sergipe

27 de Outubro- Uma Noite Feliz Para a Cultura Dorense

Numa ação exclusiva de cidadãos dorenses que resulta de puro amor à cultura (principalmente a local), foi lançado na noite do último dia 27, o ”Informativo Cultural Memórias Dorenses”. O veículo já está em sua quinta edição, que é anual, sendo fruto da iniciativa do grupo que compõe o Projeto Memórias.
Dentre tantas ações, esta é mais uma surgida na unanimidade das cabeças pensantes que compõem a Associação de Incentivo à Pesquisa e à Cultura “Nossa Senhora das Dores dos Enforcados”. A entidade já atende vários pré-requisitos, no que se refere ao seu reconhecimento como sendo entidade de utilidade pública, a nível de município e estado, o que já é uma realidade, e a nível federal está prestes a tornar-se ponto de cultura já que o processo transcorre na Secretaria de Cultura do estado e junto ao Ministério da Cultura.
A edição de número 05 surge depois de um ano de discussões, onde vários eventos, pesquisas, trabalhos de divulgação e conscientização junto à sociedade local e além fronteiras foram desempenhados. Um vasto acervo tem sido resgatado, aí com certeza servirá para que futuramente Nossa Senhora das dores tenha um memorial, um museu e quem sabe a maioria de sua população desperte, acabando assim o estigma da falta de cultura e de memória tão peculiares a alguns povos.
Ouvinte assíduo que sou da rádio Bandeirantes de São Paulo abro um parêntese para elogiar um paulista muito especial; faço a minha referência ao radialista e jornalista Milton Parron, naquela emissora e que dá uma brilhante lição de como preservar a memória de um povo. A cada final de semana Parron está com uma nova pérola, temas longínquos capazes de arrancar lágrimas de emoção do mais carrancudo ser.
Aqui em Sergipe temos sim, pessoas que abraçam essa causa, a começar pela Rádio Aperipê AM, dentre alguns nomes posso citar o do locutor Mário Sérgio e outros colegas cada uma na sua proporção; bem como iniciativas idênticas por parte de algumas entidades.
O projeto que surgiu em 2005, como uma forma de despertar a comunidade local para a importância da preservação de legados daquele povo, nesta edição 2009 traz diversos textos, abordando diversos temas conscientizadores e informativos.
O seu editorial mostra temas que serão abordados no informativo, onde se fala da freguesia de “Enforcados”, dos tempos primevos à Dores autônoma, um pouco do antes, depois e agora.
O material literário se fez compor de textos escritos por colaboradores ativos. Foram abordados diversos temas:

A importância do planejamento para que as cidades tenham um desenvolvimento ordenado (Estatuto da Cidade) sem problemas no futuro próximo; abordando a significância da necessidade de políticas públicas responsáveis por parte dos administradores públicos foi o tema abordado por Gilberto Luiz Araújo Santana, graduado em Gestão Pública e pós- graduado em Planejamento e Gestão de Projetos Sociais.

O professor e poeta Manoel Cardoso em tons poéticos revive a história dorense; fala também do rico folclore daquela terra, assim vislumbra a criação de uma Escola Superior de Folclore para dentro das possibilidades formar-se uma célula irradiadora de cultura e pesquisa em todo o estado.

Luiz Ricardo Leite dos Santos, um capelense que também ama Dores, traçou alguns paralelos, envolvendo alguns aspectos, iniciando pelo exemplo quanto à formação das duas cidades, que como a maioria começa pela formação de povoados, sempre em torno de igreja e de escolas; e foi assim o início das duas, que foram evoluindo chegando à categoria de freguesia, depois Vila e posteriormente promovidas a cidade.
Capela desde o seu início com a monocultura da cana-de-açúcar, ganhou usinas; arraigada de bom comércio à época promissora em que agências bancárias e Exatoria Estadual e Receita Federal lhe davam grande Status, e como é natural chegou a ”época de baixos”, aí a vizinha Dores num processo natural da evolução lhe arrebata duas das suas quatro agências bancárias, a Exatoria e a Receita Federal.
Dores também teve seus momentos de dor, à época em que fatores climáticos atingiram a sua promissora plantação de algodão e a sua pecuária.
Aborda a grande rivalidade no campo futebolístico, com seus grandes duelos nos campos do dorense e do Rio Branco. Ele lembra que certa vez em um jogo entre as duas equipes, onde Dores naquele dia tinha o mando de campo, a coisa quase pega fogo, pois aconteceram brigas à base de facões e armas de fogo; graças a Deus terminou em paz. Tempos depois o Dorense estava na primeira divisão e seu campo não dava condição de jogo, o mando de campo passou a ser justamente no campo da “Princesinha do Agreste”.
Outro ponto muito importante abordado é o que trata de que os administradores, em maioria tem contribuído para o fato da desvalorização das raízes culturais, pois rendendo-se à cultura de massa os chefes do executivo contribuem para que o folclore local que descende de influências indígenas, africanas e européias percam espaço ao serem asfixiados pelos meios de comunicação.
O professor historiador ainda fala de filhos ilustres dos dois municípios; também do momento atual em que Dores oferece o comércio e os compradores de Capela para lá se dirigem; para ele nada melhor do que essa relação fraterna, onde ambas se complementam.

Manoel Messias Moura, graduando em história, poeta e artista plástico, em seu texto traça um perfil evolutivo do homem, remontando práticas que desde os primórdios de 2,5 milhões de anos sofre constante evolução, em especial ele trata daquela que fala do homem, que em determinado momento sentiu a necessidade de calçar seus pés, muito tempo se passou e confirmada sua importância, até os dias de hoje a confecção de tal utensílio hoje já gera renda para o referido homem.
Obviamente em um desses estágios evolutivos surge o sapateiro, na Idade Média, ele que era parte integrante dos burgos e aí já definida a sua tarefa,onde apesar de tanto tempo persiste até hoje, inclusive em Nossa Senhora das Dores. Cita ele que antigamente naquela cidade existiam vários profissionais daquela atividade, hoje se resume a quatro deles, que bravamente resistem à produção industrializada (em série).
Numa completa entrevista ele homenageia um dorense, o sapateiro Manoel Messias dos Santos. Fala então do tempo dos sapatos, rolós, sandálias, tamancos, chuteiras, que eram confeccionados artesanalmente e semanalmente, sendo expostos nas diversas feiras da região, o homenageado Manoel Messias, dentre outras recordações fala que enquanto algumas outras profissões dependiam de clientes com maior poder aquisitivo, os sapateiros serviam a todas as classes.
Já no depoimento de outro sapateiro das terras dorenses, o senhor João Souza de Carvalho, conhecido por Arrão, com 70 anos e esteve na ativa por cinqüenta e cinco anos, segundo ele o couro produzido por aqui não tinha muita qualidade, tinham que comprar na mão de atravessadores o que encarecia, além do fato de que o estado era implacável na fiscalização para recolhimento de impostos. A modernidade foi chegando e aliada a ela o desinteresse por parte das novas gerações.

Derivaldo Alves Santos, é graduado em letras e com pós em língua portuguesa. Como mostra a sua formação, vai fundo enfocando estudos que explicam fenômenos vocabulares, detalhando a co-relação e proximidade das línguas portuguesa e espanhola, esta primeira originada do latim que chegou à Península Ibérica, mas só atingiu seu apogeu após a divisão da mesma em províncias (chegou no séc. III a, c, mas só dominou em 19 a.C.). Para lá os romanos levaram o latim vulgar, as transformações foram acontecendo, dando origem às línguas neolatinas, dentre elas o galego-português e o espanhol.
As transformações na fonética da língua em discussão (latim), chamadas de metaplasmos, são resultantes da fala espontânea, indo para o acréscimo ou o decréscimo de fonemas. Numa abordagem bastante inteligente mostra que cada falante é usuário e agente modificador de sua língua, nela imprimindo marcas geradas pelas suas raízes.

A professora Joseane Carvalho Santos, pedagoga pós-graduada em Prática Escolar numa visão Psicopedagógica e Gestão Escolar, atualmente cursando História. Fala sobre o passado e presente da juventude dorense.
Com muita propriedade ela faz uma análise crítica relatando ações resultantes da natural evolução dos tempos, sem fugir do tema proposto ela começa pelas opções de cultura,esporte e lazer existentes até bem pouco tempo, época em que os jovens “tinham o que fazer”.
Cita iniciativas louváveis nascidas no meio da juventude, naquilo que ela chama de tempo feliz, como por exemplo, a criação da JUF- Juventude Unida na Fé, um grupo criado no seio da fé católica que não só tinha sua importância neste aspecto, mas em todos os outros, contribuindo na formação do ser humano.
Segundo ela não era simplesmente um grupo, mas uma equipe porque além de reunir pessoas, tinha objetivos traçados, metas e desenvolvia ações em busca da consecução dos seus objetivos.
Rememorou os campeonatos de vôlei onde era valorizada a figura feminina; as gincanas, onde em uma delas realizada no antigo cinema à frente da igreja matriz a juventude participativa lotou o prédio, onde jovens talentos musicais foram descobertos, e tendo eles mesmo confeccionado seus instrumentos musicais.
Lamentou o fato de que a cidade em época passada já teve cinema, porém hoje, só lembrança e uma tristeza profunda.
Aí este jornalista que vos escreve, lembra que em 1975, o cinema local ia projetar a “pecaminosa” (os puritanos que o digam) película “Dona Flor e Seus Dois Maridos”; tal filme rapidamente ficou famoso e passado certo tempo ia ser projetado por aquelas cercanias, lá na pacata Nossa Senhora das Dores. Sim, aí os casais, maiores, jovens, velhos todos sem exceção ficaram curiosos de saber as novidades daquela seara que seriam apresentadas por Eva, aliás, Sônia Braga a incendiária dos desejos. E olha que nesse dia o que se via pelas ruas era casais a caminho do cinema, um sucesso de bilheteria. O resto dá para se ter uma idéia.
Voltando ao que foi exposto pela professora, vale citar a parte em que ela relata da importância que os jovens davam às artes cênicas, naquela que não é uma época distante de hoje. A JUF em seu momento pleno através dos seus formadores chegou até mesmo a criar o “Grupo Teatral Criar e Viver”, que dentre tantas peças brilhantemente interpretou Juiz de Paz da Roça e o Santo Inquérito; a ponto de através de uma faixa vista por um membro do Grupo Imbuaça (Aracaju) ter feito com que o grupo viesse até Dores para assistir a apresentação; não parou por aí, a notícia correu e o grupo foi convidado a se apresentar na cidade de Cumbe.
Tal fato abriu caminho para que fossem realizadas algumas oficinas teatrais. Eram os componentes que produziam todo o cenário de uma peça que mesmo sendo complexa deu-lhes o destaque devido à competência. Ela lembra ainda que esta atmosfera sadia chegou até mesmo a proporcionar casamentos que mesmo depois dos seus vinte anos perduram, até hoje.
Para ela é o mesmo que viajar no passado, parar no hoje e visualizar um futuro incerto, pergunta o que a cidade tem hoje a oferecer em termos de atrativos e/ou ocupações para os jovens. Também faz relação aos grupos de ligação com a igreja existentes hoje, que em número de dois já não detêm aquela notoriedade.
No aspecto cultural, Joseane lamenta que as ações são poucas, isoladas e singulares, onde há certo destaque para a tímida prática no município, reconhecendo que algumas escolas estaduais e municipais foram destaque nos Jogos da Primavera, devido ao nível da capoeira no município.
No esporte, lamenta que do pouco que existia, praticamente não se vê nada, remonta à antiga rivalidade entre o Dorense e o Flamengo. No social, o Flamengo fechado e o Dorense teve sua sede leiloada. O que se tem a ver são as festas de rua, onde os shows são os mesmos, só mudam as cidades e aí sobram os bares, em demasia. Lembra que a cidade já não conta com o espaço social do BNB, onde outrora era sucesso.
Finalizando ela conclama os jovens para que busquem uma formação mais humana, bastando a eles esquecerem um pouco do uísque e capetas; eles também podem valorizar mais as qualidades da outra pessoa, deixando de lado o “ficar por ficar”, a competição para ver “quem beija mais”.

Fica assim registrado este dia, tão importante para a cultura dorense. E este jornalista estará sempre ao dispor.
Um abraço, na espera de dias melhores.

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