DEBATE ABERTO

O anacrônico Serra

A declaração de Serra sobre o Mercosul é um sintoma de que o arcebispado tucano está vivendo numa espécie peculiar de alienação delirante, que pode tornar-se delituosa, pois, com a vitória, vai certamente trazer vários danos ao país.

As declarações do candidato Serra, menosprezando o Mercosul, fazendo a apologia dos tratados de livre-comércio, foram logo “corrigidas” com a entrevista, dias depois, à sempre prestimosa Folha de S. Paulo, dizendo que ele desejava apenas que ele fosse “flexibilizado”.

Mas a “correção” não adiantou. O que ficou no ar foi a margem de ressentimento que os sucessos no exterior do governo Lula provocaram nos arcebispados e na ceia dos cardeais do tucanato. Tudo bem. Mas houve algo mais grave. Aquele menosprezo (terá escapado, terá sido um ato falho, ou apenas um sôfrego buscar de agrado por parte de sua platéia?) foi a prova provada do anacronismo mental em que vive o tucanato e seu candidato.

Se fosse apenas uma nostalgia do “circuito Elisabeth Arden” da política externa brasileira, como até eu mesmo já escrevi que era, podia-se discordar, mas entender. Porém é algo pior. Essa declaração é um sintoma de que o arcebispado tucano está vivendo numa espécie peculiar de alienação delirante, que pode tornar-se delituosa, pois, com a vitória, vai certamente trazer vários danos ao país.

A declaração de Serra supõe o retorno a um mundo fantasmagórico que não existe mais. O mundo das negociações internacionais tornou-se hoje muito mais complexo do que sonha a vã filosofia da direita brasileira. Houve tempo em que a mídia conservadora no Brasil martelava que tudo o que cheirasse a esquerdismo era “coisa do passado”; que a nossa “Constituição cidadã” (isso era escrito com solene desprezo) era um entrave ao nosso “progresso”. Hoje, ela não consegue mais esconder que a direita brasileira deixou de ser “moderna”, se é que um dia ela o foi.

A ascensão de Serra ao Planalto provocaria uma perda de oportunidades e negócios, de afirmação e de respeito, no plano internacional, como poucas vezes se terá visto um país fazer. E o pior é que o arcebispado tucano (com os demos na sua cola) acha que isso lhe daria prestígio pelo mundo afora, pois para eles é claro que o Brasil ter um nordestino de origem humilde como presidente só pode ser motivo de vergonha e ofensa aos seus brios.

Na verdade ninguém mais hoje leva a sério a postura subserviente que essa perspectiva traz consigo, de fazer o beija-mão como aproximação dos centros de poder internacionais. Claro que haveria sorrisos e tapinhas das costas caso a direita consiga vencer as eleições em outubro. Mas tão logo seus próceres virassem as costas os sorrisos se transformariam em sonoras gargalhadas e os tapinhas cordiais, em gestos de desprezo.

Na América Latina o Brasil voltaria, potencialmente, ao tempo em que enviou tropas para conter uma revolta popular na República Dominicana (1965), ao lado dos fuzileiros navais norte-americanos. Com essa regressão poderíamos de fato dar adeus à qualquer pretensão de ter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança. Rússia, China e França jamais permitirão que um aliado automático do governo norte-americano se ponha nessa posição. Nem mesmo o Reino Unido se permitiria cometer tal loucura. Perderíamos o espaço conquistado no G-20, na OMC sem nada ganhar em troca, só o reiterado desprezo do quase finado G-8. Porque faz parte do prestígio brasileiro no exterior o fato de que ele fala em nome das demais nações perante os sete países mais industrializados do mundo e a Rússia.

O Brasil hoje ocupa uma posição de liderança no mundo; deixamos de fazer parte apenas da problemática, somos parte também da solucionática, e uma parte vital. Voltaríamos para o canto, de costas para a parede, e com a carocha de burro enfiada na cabeça. Enquanto isso, na ceia dos cardeais tucanos, haveria regozijo e brindes: teríamos voltado à nossa condição antiga de “povinho sem futuro” representado por uma elite capaz de tudo para manter sua auto-imagem de “civilizada” em “terra de selvagens”.

Vade retro!

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