Lado a Lado

Encosto ou não encosto? Só o joelho. O que pode acontecer? Ela dizer “Mr. Lula, please!” Aí eu recolho o joelho, peço desculpas, “aimsórri, aimsórri” e pronto. Se eu soubesse falar inglês, explicaria. Sabe o que é, Elizabeth? Eu estava aqui pensando: quando é que, lá em Pernambuco, eu ia imaginar que um dia estaria sentado ao lado da rainha da Inglaterra? Não sei quem é que me botou aqui para tirar esta fotografia dos G-20. Não acho que tenha sido um pedido seu, “Quero o bonitinho de barba à minha esquerda”. Claro que não. Mas o fato é que estou aqui e o Barack está aí atrás em algum lugar, de pé e se perguntado o que eu tenho que ele não tem. O Sarkozy não deve nem estar aparecendo. Ficou atrás da Merkel e não vai sair na foto. E eu aqui ao seu lado, na primeira fila.

Isto significa muito, viu Elizabeth? Lá na minha terra vai ter gente se mordendo de raiva. Onde já se viu, aquele retirante nordestino que nem fala direito sentado à esquerda da Rainha da Inglaterra? Quando eu me elegi muita gente ficou horrorizada: como é que vai ser quando ele, um torneiro mecânico, tiver que nos representar num jantar oferecido, por exemplo, pela coroa inglesa? Vai ser servido na cozinha, para não dar vexame na escolha dos talheres. E aqui estou eu, sentado ao lado - com todo o respeito - da coroa inglesa em pessoa.

Se foi o protocolo que me botou aqui, ele acertou, viu Beth? Você, queira ou não, não é só a rainha dos ingleses, é, simbolicamente, a rainha de todos os loiros de olhos azuis do mundo, incluindo o Barack. De todos os bandidos que causaram esta crise e hoje nos infernizam a vida. E, de certo modo, eu sou o seu oposto. Sou uma espécie de rei republicano dos não-loiros do mundo - ou pelo menos deve ter sido essa a idéia do protocolo aos nos botar lado a lado. Todos os outros chefes de estado desta fotografia seriam dispensáveis. A foto poderia ser só de nós dois e estariam todos representados.

E isto significa outra coisa também, viu Beth? Eu não me contentei em ter nascido na miséria, no Nordeste, e quis mais. Não me contentei em ser um torneiro mecânico em São Paulo e quis mais. Não me contentei em ser um líder sindical e quis mais. Não me contentei em perder eleição atrás de eleição, insisti e acabei presidente. Agora estou aqui, lado a lado com a Rainha da Inglaterra, num dos pontos mais altos da minha carreira, e também quero mais. Por isso minha perna se moveu e meu joelho encostou no seu. De certa forma, o movimento da minha perna foi o passo final da caminhada que começou em Pernambuco, tantos anos atrás. Já que, ao contrário de você, Beth, não posso ficar no poder para sempre.

(Luis Fernando Veríssimo - 05/04/09)

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Pra terminar bem a semana, ouça The Lion Sleeps Tonight na maravilhosa interpretação de Jimmy Cliff.

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Comentário de Cafu em 7 abril 2009 às 22:38
Lula ao lado da "coroa" da Inglaterra é ótimo. Hahaha.
;-)
Comentário de esther lucio bittencourt em 8 abril 2009 às 6:06
ah, querida helô, veja aqui, que no programa novo do servio na mec, neste mes, tem um especial sobre cabaré:café concerto
Comentário de Sérgio Troncoso em 8 abril 2009 às 11:24
É Helô,para quem acha que o Lula não conhece o seu lugar,olha só o lugar que arrumaram para êle,rsrsrs. Como pode haver gente tão cega no Brasil,que não vê a importância de termos um cara como êsse na presidencia. Um abraço,Sérgio.
Comentário de Antonio Barbosa Filho em 10 abril 2009 às 0:06
Sou obrigado a usar a primeira pessoa para um depoimento, certamente parcial. Há uns quatro anos, quando comecei a frequentar a Holanda, e apresentado a dezenas de cidadãos daquele país, de todos os níveis culturais e sociais, supreendi-me com duas coisas.
Ao saberem que eu era brasileiro, falavam logo em Romário, antes de falarem no Pelé. Parece que Pelé já passou àquela categoria hours concours, é o óbvio Rei, e nem é necessário mencioná-lo, como era há trinta ou vinte anos atrás. Romário é ídolo até hoje na Holanda, e abriu caminho no PSV para o Ronaldão e depois o Ronaldinho.
A outra surpresa era o grau de admiração, ou no mínimo curiosidade, que todos tinham sobre Lula. Talvez haja uma dose de exotismo, aquele olhar eurocêntrico sobre a América Latina e o resto do mundo não-europeu. Mas realmente a maioria dos mais informados nutria verdadeira admiração pelo ex-operário, migrante, que chegou ao governo de um paizão tão grande e tão rico. Os holandeses, talvez mais que os franceses de hoje, sabem o quanto o Brasil é rico. Não se conformam de termos favelas, cenas de violência iraquianas nas ruas, coisas assim.
Nesses quatro anos, o Brasil e Lula só cresceram em prestígio na Holanda e, pelo que leio nos jornais de vários países, no mundo todo. Lula é muito mais diplomata que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que sempre colocou-se no primeiro plano, um grande intelectual "apesar" de ter nascido no Brasil. Lula não: ele é a cara do Brasil.
Fazem uma simetria (e ouvi isso de um ex-ministro e atual senador holandês) entre a caminhada do Brasil, ex-colônia explorada que aos poucos foi superando obstáculos terríveis e tornando-se protagonista da cena mundial, e o nosso presidente, cuja trajetória também vem do "terceiro Brasil " (se éramos terceiro mundo), até chegar ao centro do palco, com uma aprovação inédita, talvez, no mundo, em tempos de Paz.
Tenho muito orgulho de ser brasileiro (tinha mesmo nos tempos terríveis que já passamos - aos 53 aninhos já deu prá ver alguma coisa) e de termos como presidente uma pessoa com tal carisma e compromisso com nosso País. Só quem não reconhece esta obviedade são mentes colonizadas, que agora nem têm mais uma metrópole para se prostarem de joelhos, depois da cena que o Obama nos deu, em Londres.

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