VOCÊ GOSTA DE TRABALHAR? EU NÃO!

Já me disseram que tem gente que gosta de trabalhar. Eu não acredito, mas que tem, tem. É tal e qual os fantasmas, não acredito neles, mas que existem, existem. Igual naquela célebre frase espanhola, que sei lá quem falou: yo no creo em brujos, pero que los hay, hay. Eu não gosto de trabalhar, mas tem gente que gosta. Problema deles. Tive meu primeiro emprêgo formal, numa tipografia, em 1956. Em 1957 eu já sonhava com a aposentadoria. Eu não sou preguiçoso, como costumam qualificar-me. Eu simplesmente não gosto de trabalhar. É uma questão de gosto e gosto não se discute. Já amanheci lendo, (deitado) sem me sentir cansado ou com preguiça. Sou capaz de jogar baralho ou sinuca durante horas, achando bom. Danço até altas horas da madrugada e no carnaval varo noites. Consequentemente, eu não sou preguiçoso. É uma questão de gosto mesmo. EU NÂO GOSTO DE TRABALHAR! E olha que eu nunca peguei no pesado. Fui desenhista de um arquiteto comunista lá em Uberlândia, fui desenhista de letras, tipógrafo e finalmente dentista. Bom, nesta última profissão, até que trabalhar era menos ruim, pois quem sofria mesmo era o freguês. Afinal, de dente em dente o dentista enche a caderneta de poupança, ganhando a vida com o sofrimento alheio.

Meu pai trabalhava demais. Minha mãe também. Meu pai era contabilista da prefeitura e geralmente, levava serviço para casa e ficava até tarde da noite, batucando naquela maquininha de somar que tinha uma manivelinha. Minha mãe era professôra primária, ficava fazendo planos de aula. Meu saudoso pai, ideólogo do marxismo vivia dizendo que eu era preguiçoso. Eu tentava explicar que era apenas uma questão de gosto. Eu era e sou marxista também, defensor do trabalho contra o capital. Trabalhista, mas não trabalhador. O fato de eu ser a favor dos operários, não significa, necessariamente que eu, assim como eles, tenha que ralar também e ainda por cima gostar disso!

Há três anos, eu vivo tal e qual eu sempre imaginei que devia ser a vida. Vivo de rendas, (às custas da mulher e dos filhos) lauta e faustosamente, sem nenhuma obrigação ou compromisso, sem ter que cumprir horário. Eu ando, nado, corro, danço, bato papo nos botequins, (sem beber) fico aqui a digitar no computador, leio, assisto à TV, encho o meu dia. Isso é ter preguiça? Mas se alguém me pagar por tais coisas, passa a ser obrigação e trabalho. Aí ó! C'est fini! Dia desses meu ex-protético perguntou-me se eu não tinha saudades e vontade de voltar a trabalhar. Respondi: -- Cruzes credo! Te esconjuro! Bati na madeira, pé de pato, mangalô três vezes.

Meu avô materno, como diziam os parentes mais velhos, também não era muito chegado a serviço não. Quando eu nasci, ele já não fazia nada na vida. Vivia em pijamas, lendo ou jogando paciência. Como ele havia sido seminarista, era latinista. Estava sempre proferindo máximas latinas sôbre trabalho, do tipo “labor omnia vincit”, “operare anima noblit” e outras que tais. Gostava também de criticar a indolência alheia, mas não a dele. Votava na UDN. Sem falar em política, eu gostava muito dele. Convivemos por quarenta anos, até seu falecimento, com cento e dez anos de idade. Meu pai, que trabalhava adoidado, faleceu aos sessenta e sete anos. Meu avõ que não gostava de trabalhar viveu cento e dez anos, o que me leva a concluir que trabalho não é lá essas coisas para a saúde não.

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