Poema à boca fechada ( Saramago )
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

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Comentário de Stella Maris em 17 janeiro 2012 às 22:20

Pois, amiga,

às vezes é assim mesmo..

uma frase!

um olhar..

....e.. fiat lux!!!!

beijos..

saudades de você.. da Val...

Comentário de Ivone Prates em 17 janeiro 2012 às 22:15

"Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo".

Stella, desde que li o poema que fiquei "matutando"... 

         Sabe quando vem algo na hora certa? Rsrsrs. 

          Beijos!

Comentário de Stella Maris em 17 janeiro 2012 às 22:08

Pois! Ivone,

é o Saramago!

Comentário de Ivone Prates em 17 janeiro 2012 às 20:22
Que beleza! Quanta sabedoria.

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